Autor

Duarte Gomes

Data: 01/05/2022

Os dinossauros com mais telhados de vidro do que o museu do Louvre

A fixação que se tem visto, lido e ouvido em relação ao trabalho daqueles a que muitos chamam de “especialistas de arbitragem” atingiu, nas últimas semanas, níveis extremos.

Nada de novo. Aliás, era até expetável.

Reparem… as contas da primeira liga (ainda) estão em aberto e bater em tudo o que mexe, em tudo o possa desestabilizar determinado alinhamento, é crucial.

Não pensem que é por acaso. Não é. Há, em várias pessoas que gozam de alguma notoriedade pública, uma obediência cega a uma estratégia que, nuns casos, é apenas pessoal (cegueira total pelo clube do coração), noutros estratégica.

O objetivo? Muito claro: tentar descredibilizar o “especialista” sempre que a sua análise não valide a posição que defendem. Sempre que digam ou escrevam o contrário do que queriam ouvir.

E para o fazer recorrem àquela que, regra geral, é sua zona de conforto: a brejeirice, o grito e o insulto, ora declarado, ora mascarado de uma ironia que julgam suprema, mas que é só rasterinha.

Fazem-no convencidos que o aumento propositado dos decibéis ou as barbaridades que teclam na imprensa e redes sociais é capaz de condicionar ou amendrontar a forma de ser e pensar de quem assou milhares de frangos (mais) bravos, durante uma carreira inteira.

Claro que a estratégia direcionada até colhe, porque há sempre umas quantas dúzias de acéfalos que comem gelados com a testa e são incapazes de processar pensamento autónomo. São incapazes ver para lá da verdade que lhes colocam à frente. Felizmente a maioria das pessoas, quando afastadas da bolha emocional que dura o penálti discutível ou a expulsão polémica, consegue enxergar bem para lá da narrativa parcial em que tanto insistem.

Sem prejuízo de várias pessoas válidas, sérias e integras que comentam em televisão e que escrevem em jornais – aquelas que, mesmo quando criticam, são elevadas e até humoradas -, haverá sempre uma mão cheia de wannabes.

Meros avençados que tentam sobreviver a todo o custo, para manterem na mente o tempo em que até tinham algum poder. Tempos idos e quase todos com histórias que ainda hoje contamos quando queremos recordar momentos tristes de um passado recente.

Esses, meus amigos, estão bem identificados. São quase todos dinossauros com mais telhados de vidro do que o museu do Louvre e que até pagavam para se manter à tona, para sobreviver num tempo que já não é o deles. Como um dia, este não será o meu ou o vosso. Naturalmente.

Não sei, muito sinceramente, o que é mais triste: a figura descabelada a que se prestam ou o espaço que a imprensa permite que usufruam. Bem sei que os tempos são de guerra e o único valor que as coisas têm assenta apenas no retorno financeiro que podem obter, mas caramba… contratar talibãs é sempre escolha arriscada.

Alguns conselho a quem ainda se presta a esses números de circo:

– Percebam que há um tempo para tudo na vida. Aceitem que, nalguns casos, o vosso já terminou.

– Percebam também que, quando o “especialista de arbitragem” fala, o jogo já acabou, os golos já foram marcados e os pontos distribuídos. Nada muda, nada fica diferente. Dêem menos importância ao veredito que têm para dar sobre cada lance e ouçam com mais atenção as explicações e esclarecimentos técnico que oferecem. Pode ser que assim deixem de dizer “grande penalidade” ou “foi bem expulso porque foi imprudente”. Até arrepia.

Por último, entendam:

– Nada do que digam ou escrevam vai afetar a forma como eles trabalham, pensam e fazem o seu trabalho. É exatamente igual ao jogador que protesta depois do árbitro tomar a decisão: totalmente inócuo. Pior: contribui apenas para a antítese daquele que deveria ser a conduta certa de quem ainda tem influência indireta no desporto.

Já que têm algum tempo de antena, dispam a camisola e ofereçam soluções. Apresentem propostas, tentem ajudar a responder aos problemas da arbitragem e do futebol (e sim, têm muitos) e façam sugestões válidas e exequíveis.

Acrescentem valor. Não se fiquem pela critica redundante, parcial e alheada. É triste, muito triste ver-vos a definhar assim, todos os dias.

Fonte: Expresso