Autor

Jorge Faustino

Data: 20/08/2019

Interpretações e indicações

Os árbitros, desde que entram no fascinante mundo que é estudar as Leis de Jogo, são rapidamente confrontados com duas realidades, normalmente coincidentes, mas que por vezes se tornam antagónicas ou, pelo menos, pouco claras na sua relação. Falo das interpretações que se fazem das Leis de Jogo, escritas pelo IFAB, e das Indicações, com base nessas interpretações, que posteriormente são dadas aos árbitros pelos organismos responsáveis (Comités de Arbitragem Internacionais e Conselhos de Arbitragem Nacionais).

Concretizando: a definição de “impacto” na Lei do Fora-de-Jogo, que surgiu com o objetivo de ajudar a esclarecer o que é “influenciar um adversário” na análise de fora-de-jogo, tem sido objeto de muitas discussões no que toca à sua interpretação. Quando em 2016 as Leis passaram a falar de impacto, esta palavra e respetivo conceito já tinham sido apresentados aos árbitros internacionais no curso UEFA de preparação da época 2015/2016, tendo sido posteriormente difundida em comunicado para todas as federações, referindo: “Impacto: aplica-se à capacidade de um oponente (jogador defensor) jogar a bola e incluirá situações onde o movimento para jogar a bola é atrasado, dificultado ou impedido pelo jogador em posição de fora de jogo”.

E o porquê desta minha reflexão sobre “impacto”? Aconteceu nesta jornada um lance que dividiu as opiniões dos especialistas de arbitragem e levantou, novamente, questões sobre a interpretação do que é “impactar um adversário (defesa) quando se está em posição de fora de jogo”. Foi anulado um golo ao Benfica porque no início da jogada, Seferovic, em posição de fora de jogo, correu para receber um passe, sendo este intercetado por um defesa (descrição simplista de lance).  Foi assinalado fora-de-jogo porque se considerou que a ação do atacante do Benfica (correr para ir receber a bola estando a cerca de 3 metros nas costas do defesa) impactou a ação deste.

As interpretações podem ser diferentes. As opiniões também. A minha, e volto a sublinhar que é construída com base na atual definição de impacto, é de que nunca este fora de jogo deveria ser sancionado.

Mas… tal como na Leis Gerais, quando melhor conhecermos o pensamento do legislador, melhor e mais facilmente conseguiremos interpretar a Lei e aquilo que se espera dela. Quero com isto dizer, e aplicando a este caso, que alguém que tenha mais contacto com as instâncias internacionais, nomeadamente com os membros do IFAB, terá uma opinião sobre a interpretação que se deve fazer sobre determinado ponto da Lei mais avalisada do que um outro alguém numa posição de maior distância desses organismos e pessoas.

O Conselho de Arbitragem já veio, entretanto, esclarecer que as indicações internacionais e, consequentemente, as dadas a nível nacional aos nossos árbitros (e agora já estamos a falar de indicações e não de interpretações) vão no sentido de considerar lances como este, que ocorreu no Belenense – Benfica, como infração.

Indicações são para seguir e não para questionar ou tentar interpretar. Assim sendo o Fábio Veríssimo e a sua equipa estiveram bem a anular o golo. Concordando ou não, estamos, para já, todos esclarecidos.

Artigo de opinião publicado no jornal Record de 20 de agosto de 2019

Fonte: Record