Autor

Jorge Faustino

Data: 23/01/2019

Ética e violência

Tive ontem a oportunidade, no âmbito de ações que o Plano Nacional de Ética no Desporto faz junto das escolas, de participar numa palestra junto de algumas dezenas de jovens, alunos da Escola Secundária Fernão do Pó, em Bombarral. Falar sobre ética e valores no desporto é fácil. Há muitos argumentos para defender e posicionar a prática desportiva como um dos mais fortes contribuidores na formação de uma pessoa. Torna-se mais difícil explicar como é que essa mesma prática desportiva pode ser justificação para tantos maus comportamentos que se vão testemunhado em campos de futebol todos os fins de semana.

Há alguns anos atrás, em fóruns deste género, as perguntas que me eram incontornavelmente colocadas passavam por “existe corrupção na arbitragem?” ou “já alguma vez foi aliciado?”. A corrupção era o fantasma que suscitava a curiosidade dos jovens. Felizmente conseguimos (todos os envolvidos no futebol) fazer o caminho para que hoje em dia a grande maioria dos jovens não olhe para o árbitro como o elemento que pode ser comprado para desequilibrar um jogo. As novas gerações podem até criticar a qualidade dos nossos árbitros, mas já não vivem ensombradas pela falta de independência da arbitragem.

Os maus comportamentos que acima referi, e dos quais temos notícias todas as semanas: árbitros agredidos, pais envolvidos em agressões, violência verbal, etc, são aqueles que levam a que perguntas como “alguma vez foi ameaçado?” ou “alguma vez foi agredido?”, e que eram amiúde colocadas, me sejam hoje em dia inevitavelmente postas. É um sinal da forma como o futebol de formação e das competições não profissionais é visto. Estamos a deixar estragar a essência do desporto que gostamos. Impõem-se medidas! Pode parecer alarmista, mas não quero que a pergunta recorrente daqui a uns tempos seja: “Nunca, em campo, sentiu a sua vida em perigo?”

 

Artigo de opinião publicado no jornal Record na edição de 23Jan2019