Autor

Jorge Faustino

Data: 22/09/2020

Erros e falhanços (Opinião de Jorge Faustino para Link To Leaders)

Fui desafiado para, neste espaço, escrever sobre liderança e sucesso na expetativa de poder inspirar alguns jovens. Tentei explicar que eu poderia não ser a pessoa indicada…mas insistiram. Venho assim, e ao jeito de biografia, escrever sobre algo que me é tão próximo e que acredito ser fundamental abordar quando falamos de liderança e/ou sucesso: erros e falhanços.

Aos 18 anos de idade fiz uma escolha. Defini os meus objetivos de curto, médio e longo prazo e decidi que ia passar a ser um reconhecido falhanço. Consegui falhar muito, mas, infelizmente, não consegui atingir o nível de falhanço a que me tinha proposto inicialmente. Que fique registado: não falhei em ser um falhado! Tive muitos momentos de sucesso na minha atividade e, mesmo tendo falhado nos grandes objetivos, olho para trás e sinto que o meu percurso de 20 anos no futebol foi um estrondoso sucesso pessoal! Esclareço: fui árbitro de futebol, aliás, sou! Porque ser árbitro fica-nos na pele independentemente de estarmos dentro do campo ou não.

Planeei que aos 22 anos ia ser árbitro dos quadros nacionais, que aos 27 estaria na primeira divisão e que antes dos 33 seria árbitro internacional. Correu tudo errado.

É verdade que dirigi jogos nos distritais, nos campeonatos da Federação Portuguesa de Futebol e também cheguei a arbitrar e, consequentemente, falhar em jogos das competições da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Mas tudo fora dos meus prazos. Falhei, falhei e tanto falhei que me deram a oportunidade de ir falhar para fora do país em três Campeonatos Europeus de Futebol Universitário e aí, falhei à grande, apitei uma final. Tudo isto no futebol de onze.

Tanto falhanço e tanto orgulho nos falhanços! Começo a acreditar que o gosto pelo risco do falhanço está em boa parte relacionado com a nossa personalidade, aquela pouca que já trazemos connosco quando nascemos. O resto vem com o tempo e com a experiência.

Desenvolvendo a questão da apetência genética pelo desafio de se ser reconhecido e lembrado mais facilmente pelos falhanços do que pelos sucessos, posso argumentar apenas utilizando a minha vida desportiva e comecemos pelo início: sonhei em ser guarda-redes de futebol. Um guarda-redes pode ser fantástico, mas por norma, e principalmente quando somos crianças, fica na memória dos colegas e amigos pelas suas falhas, vulgo “frangos”. Durante os cerca de 10 anos que fui guarda-redes tive falhanços fabulosos: sofri golos vendo a bola passar-me por baixo das pernas; gritei “é minha!” em cruzamentos nos quais a bola passou cinco metros acima de mim; errei passes para colegas meus e, dessa forma, isolei adversários… Concluindo: andei 10 anos a pensar que ia ser jogador de futebol mas, verdadeiramente, estive a preparar-me, sem o saber, para o maior dos desafios de se ser árbitro: lidar com o erro.

Uma curiosidade antes de deixarmos a história de ter sido guarda-redes e que, coincidentemente ou não, é uma realidade no mundo da arbitragem: muitos dos meus colegas que atingiram os patamares mais altos da arbitragem foram, em jovens, guarda-redes de futebol.

Foi aos 18 anos que tomei uma das decisões que mais marcaram a minha vida. Troquei a baliza pelo apito. Os meus falhanços deixaram, assim, de prejudicar sempre a mesma equipa, a minha, passando a prejudicar ambas. Sou um democrata! Mas aos 18 anos ter o “poder” de tomar decisões que influenciam jogos é um perigo a todos os níveis. Não temos experiência e, por isso, erramos mais vezes. Não temos estatuto e, por isso, são-nos apontados ainda mais erros do que aqueles que cometemos. Somos jovens e, por isso, achamos que nunca erramos. Mistura explosiva!

Não aceitar ou reconhecer os nossos erros é a pior coisa que pode acontecer a um árbitro. Arrisco dizer que é das piores coisas que pode acontecer a qualquer pessoa. Não ter consciência que erramos não nos vai permitir, em primeiro lugar, aprender com esses erros, corrigi-los e crescer. Em segundo, não seremos capazes de desenvolver aquele que considero ser o segredo fundamental para sermos felizes, na vida: perceber que os outros, tal como nós, erram. E, tal como nós achamos que a nossa “pessoa inteira” não deve ser julgada apenas por um erro, também não podemos julgar os outros por um momento de falhanço. Mesmo que esse falhanço nos afete ou prejudique.

Arbitrar um jogo de futebol é isso mesmo, estar sujeito ao erro. É inegável. Diversos estudos foram feitos que apontam que um árbitro num jogo de futebol profissional toma entre 250 e 300 decisões (nota: uma não decisão também é uma decisão) e que falha, em média, menos de três por cento das vezes. Em poucas profissões se deve errar tão pouco. Mas em poucas profissões o nosso trabalho é tão escrutinado, debatido e discutido.

Esta é uma das “facilidades” em se ser árbitro – não precisamos procurar muito pelos nossos erros pois todos os envolvidos neste desporto estão disponíveis para nos ajudar, apontando-os! A partir daqui, com os principais erros e falhas detetadas, o nosso trabalho no percurso para a melhoria está facilitado. Apenas temos de nos focar em encontrar as soluções para não voltar a errar: correr muito umas vezes…correr menos noutras; concentrarmo-nos mais na zona da bola umas vezes…ter um foco atencional mais abrangente noutras; falar mais com os jogadores umas vezes…falar menos noutras; pensar mais antes de tomar uma decisão umas vezes…pensar menos noutras; colocarmo-nos num sítio umas vezes…e em situações semelhantes colocarmo-nos noutro; ser mais compreensivo nuns momentos…ser menos noutros. Tudo coisas simples e óbvias. Ou não…

Em cada jogo, era meu principal objetivo errar o menos possível e, idealmente, não errar nas decisões cruciais. Se pudesse escolher falharia nas pequenas decisões e acertaria nas grandes e importantes. Apenas um senão, os erros e falhanços só têm a importância que se lhes dá. E são o contexto e as consequências de um erro que definem a sua importância e gravidade.

Falando de erros, contextos e consequências. Um erro numa decisão de um lance de grande penalidade é sempre importante e grave. Isto porque normalmente está relacionado com a obtenção de um golo e os golos são o que decidem os jogos. Mas o contexto pode alterar tudo. Há alguns anos, ao arbitrar um jogo do campeonato nacional de iniciados, tive de assinalar cinco faltas puníveis com pontapés de grande penalidade, que ninguém contestou, favoráveis à mesma equipa. A dois minutos do final desse jogo, quando o resultado estava em onze a zero, um jogador da equipa que estava a perder conseguiu numa jogada individual, iniciada perto da sua baliza, chegar ao interior da área adversária e, após fintar o último defensor, apenas com o guarda-redes à sua frente, chutar a bola à baliza. De tão cansado que estava daquela correria toda, falhou a bola, rematou no ar e deixou-se cair. Do banco da sua equipa gritou-se: “penalty!”. Não havia nenhum adversário num raio de dois metros daquele jovem jogador. No final do jogo os treinadores de ambas as equipas tinham opinião concordante sobre esse lance: não tinha existido qualquer falta, mas eu podia ter assinalado grande penalidade. “Depois daquele esforço, o miúdo merecia!”, disseram!

A bola sair pela linha lateral é uma situação de jogo que acontece muitas vezes e, em oposição com o que por norma acontece nas decisões que envolvem grandes penalidades, não me recordo de alguma vez ter tido problemas imediatamente após falhar numa decisão de um lançamento lateral. Se o contexto for favorável é “apenas” uma falha leve a que ninguém dará muita importância. Mas, novamente, o contexto e a consequência dessa leve falha podem alterar a gravidade da mesma: se esse lançamento de linha lateral acontecer aos noventa minutos de um jogo decisivo, que está empatado, e daí resultar um golo, as coisas não vão correr bem para o meu lado!…

Estes dois exemplos servem apenas para ilustrar a ideia, que já repeti algumas vezes neste texto, de que, a meu ver, um erro ou falhanço é apenas um ato/momento. Para mim, enquanto árbitro, mas naturalmente também como pessoa que procura crescer e melhorar, terei que isolar o erro e a minha tomada de decisão daquelas que foram as suas consequências. Só assim poderei, depois, concentrar-me em encontrar estratégias que me ajudem a evitar voltar a cometer o mesmo erro em situação semelhante. Se me perder no ruído que é a consequência do erro em si, nunca conseguirei ter a clarividência para ultrapassar esse erro. É importante esclarecer que nunca desvalorizei ou desvalorizo as consequências das minhas falhas no trabalho dos outros, mas se lhes der “demasiada atenção” desfoco-me do essencial: encontrar soluções para que os erros não se repitam.

Ser árbitro de futebol obrigou-me a saber conviver com o erro e isso é de facto libertador. Ter falhado muito e ter sido obrigado a enfrentar e aceitar os meus erros, ensinou-me a procurar em cada falhanço algo de positivo.

Troquemos a arbitragem por qualquer outra atividade e, acredito, este texto vai continuar a fazer sentido.

A Associação Começar Hoje*, responsável por eu estar a escrever neste espaço, foi criada para apoiar, incentivar e motivar os jovens no seu início de caminhada profissional. É isso que tem feito com tantos eventos e ações onde procura mostrar que o sucesso está só apenas a um passo de distância. Escrevi este texto para, de certa forma, completar esse trabalho alertando que o sucesso pode estar a um falhanço de distância.

 

* Jorge Faustino é conselheiro da Associação Começar Hoje