Autor

Duarte Gomes

Data: 18/09/2021

As paragens de jogo nunca foram um problema apenas dos árbitros. São um problema cultural

Num dos muitos programas de interesse que podemos assistir na grelha do Canal 11, o Pedro Sousa ofereceu-nos um dado extremamente relevante para, pelo menos, pensarmos mais a sério nesta coisa das “excessivas paragens de jogo”, tão criticadas na montra maior do futebol português: a primeira liga.

Este não é, diga-se, um tema novo.

Aliás, os que fazem a amabilidade de ler alguns dos artigos que aqui publico semanalmente, recordar-se-ão que há não muito tempo abordei este assunto com alguma profundidade.

Há, aparentemente, uma espécie de “regra consuetudinária” enraizada no povo (e não só), que é difícil de contrariar: de cada vez que se fala em tempo útil de jogo, pensamos logo em “árbitros, faltas e faltinhas”. É automático.

Esse problema — realmente importante porque afeta sobremaneira a qualidade do espetáculo —, está associado a arbitragens demasiado defensivas de profissionais que apitam a medo, por tudo e por nada.

Parece-me importante desmontar este mito, porque a convicção — não estando totalmente errada — está bastante errada.

Os árbitros são sim uma peça importante neste xadrez…, mas serão o peão ou o rei?

De facto, um árbitro mais interventivo, menos propenso à aplicação da vantagem ou com maior sensibilidade aos contactos, pode contribuir para um jogo mais pausado. Para um jogo lento, com pouca fluidez e ritmo competitivo. Mas acreditem quando vos digo, os donos do apito estão longe de serem os únicos réus neste julgamento.

Se tivermos em conta uma investigação recente da “Portugal Football School” (FPF) sobre as causas que originam perdas de tempo no jogo, a maior é o recomeço após interrupções nos pontapés-livres. Depois aparece o processo de substituições, as pausas por lesão e respetivo transporte de jogadores, os pontapés de baliza, os lançamentos laterais e só no fim as paragens para consulta do videoárbitro.

Quer isso dizer que muito do “tempo morto” no futebol de alta competição tem uma causa tática/estratégica, que não é da exclusividade responsabilidade dos árbitros. Pelo contrário.

A tal reflexão conduzida pelo Pedro Sousa no 11 reforça essa ideia, com dados recentes muito objetivos:

Na semana passada, o jogo arbitrado pelo gaulês Willy Delajod (P. Ferreira/SC Braga) foram assinaladas 30 faltas, o que correspondeu ao recorde de infrações do francês esta época.Antes, no Lens/Lorient, tinha apitado 20 vezes e no PSG/Estrasburgo, 24.

Por outro lado, Luís Godinho — que por força do intercâmbio, dirigiu na mesma semana o Bordéus/Lens —, assinalou aí apenas 19 faltas.

Nas jornadas anteriores da Liga Portuguesa, o eborense tinha interrompido a partida 32 vezes (no Tondela/Portimonense), tantas como no Feirense/Farense e no Braga/Sporting.

Fonte: Expresso