Autor

Jorge Faustino

Data: 18/04/2017

A minha equipa

Conheço a maior parte dos árbitros do actual quadro de primeira categoria. Partilhei cursos, jogos e treinos com muitos deles. Sou amigo de alguns. Existem outros, no entanto, por quem não nutro qualquer amizade ou admiração pessoal.

Torço sempre por eles quando vejo um jogo. Fico triste sempre que, seja quem for, não tem uma arbitragem feliz. É mais forte que eu. Eles são da minha equipa. A equipa da qual fiz parte a maior parte da minha vida.

Este fim-de-semana a minha equipa esteve melhor nuns jogos que noutros. E, nesta altura do campeonato, mais do que nunca, é fulcral que consiga estar sempre bem.

Os jogos do Benfica e do Porto são, nesta fase, aqueles em que todos os olhos estão postos. São jogos cujas imagens televisivas são vistas e revistas. Dezenas de programas de televisão, centenas de páginas de jornais e muitas horas de rádio são dedicadas à análise das partidas destas duas equipas. Boa parte dessa análise incide sobre o trabalho das equipas de arbitragem.

A minha equipa que esteve no Benfica – Marítimo teve um jogo que, pela forma como o resultado se foi construindo e pela lealdade e correcção com que os jogadores o disputaram, não foi complicado de dirigir. Neste jogo, destaco um lance que ocorreu na área do Marítimo aos 38 minutos de jogo: cruzamento da direita para Mitroglou que, no coração da área e pressionado por um defensor insular, falhou o remate. O atacante levantou-se a pedir falta. Nuno Almeida nada assinalou. Pareceu-me, em lance corrido, que o atacante benfiquista terá sido tocado, ao de leve, no seu pé esquerdo. Dada a velocidade que levava bastaria um toque quase impercetível para criar desequilíbrio e impedir a obtenção de um golo. Pareceu-me, repito, pontapé de penálti que ficou por assinalar. As imagens televisivas não foram conclusivas. Não há uma imagem inequívoca que mostre que Mitroglou foi efectivamente tocado. E isso foi bom. Posso contrariar o meu feeling de que houve falta defendendo a decisão do árbitro com base na ausência de “provas acusatórias”. Em caso de dúvida tenho de aceitar como boa a decisão do árbitro.

O Braga – Porto foi um “filme” diferente. Jogo muito equilibrado e disputado. Jogadores demasiado nervosos e conflituosos. Muitos lances de difícil análise técnica e disciplinar. Foi um encontro que, sendo à partida previsivelmente difícil para a equipa de arbitragem, se tornou num jogo no qual, seria quase impossível, um árbitro conseguir sair sem mácula.
Aconteceram cinco lances, mais visíveis, nas áreas. Hugo Miguel acertou, a meu ver, em quatro. E, infelizmente, basta um para estragar uma arbitragem. Esse lance aconteceu aos 23 minutos de jogo num cruzamento para a área do Braga. Artur Jorge agarrou e puxou Felipe quando este tentava posicionar-se para tentar cabecear. O árbitro, seguramente focado noutra posição e noutros jogadores, não viu este lance com a mesma a clareza que as imagens televisivas nos mostraram. Pontapé de penálti por assinalar e uma arbitragem estragada…
Acertou, ou não errou de forma grave, passado um minuto (aos 24) quando não considerou que Soares tenha sofrido falta também na área do Braga. Foi o atacante que, de pé em riste, cometeu a primeira falta nesse lance.
Acertou, aos 47 minutos, quando conseguiu perceber que houve mão (braço) na bola de Oliver a dominar a bola na sua área. Pontapé de penálti bem assinalado.
Acertou também quando não se deixou enganar por André Silva quando o atacante portista, na área do Braga e pressionado por um defensor, prendeu o braço deste fazendo parecer que era o defensor que o agarrava e impedia de saltar. Poderia ter sido induzido em erro, mas não foi.
Acertou, novamente, aos 88 minutos quando Soares simulou ter sofrido um puxão ou rasteira, na área do Braga. Simulação clara bem sancionada pelo árbitro da partida.

A estes cinco lances nas áreas há que somar uma série de decisões difíceis. Um cartão vermelho a Cartabia por falta grosseira sobre Alex Telles que Hugo Miguel não percebeu como tal. Alguns amarelos que ficaram por exibir. Escaramuças entre vários jogadores que não era possível ao árbitro ver. E, sobretudo, muitas boas decisões que foram tomadas pela equipa de arbitragem, mas que foram apagadas pelos erros cometidos.

A minha equipa que esteve no Porto – Braga “jogou” o que podia. Empenhou-se e deixou tudo em campo. Perdeu nesta jornada. Mas tenho a certeza que vai ganhar em muitas outras.

Fonte: Público