Autor

José Lima

Data: 11/08/2021

Apostar nos valores

Marcados por uma pandemia que teima em permanecer entre nós, esta, se alguma coisa trouxe em relação ao desporto, foi que pela ausência da prática desportiva podemos valorizar o que nos “foi tirado”.

Todos nós somos chamados, a cada instante, a apostar em valores. Mas que valores? Referimo-nos aos valores que para nós e para a sociedade têm “peso” ou “qualidade”, de forma a guiar as nossas decisões. No campo da ética e do dever falamos de valores como a verdade, respeito, solidariedade, amizade, a transparência, entre outros, e não tanto dos valores materiais ou económicos. Estes últimos ajudam-nos a viver, mas gastam-se com o tempo, enquanto os primeiros, de forma geral, são perenes e mantêm-se ao longo da nossa vida: são, por isso, uma aposta segura. Ao apostarmos no jogo ─- como na vida ─ temos de ter em conta os valores em que acreditamos. Um valor fundamental é, sem dúvida, a transparência, sermos claros ou não termos nada esconder. A transparência leva-nos à verdade.

Nesse sentido, o mundo das apostas desportivas deve ser verdadeiro e legal, só assim é que poderá ser transparente, contrariamente ao mundo das apostas ilegais, que revela um submundo criminoso.

Nesse sentido, o mundo das apostas desportivas deve ser verdadeiro e legal, só assim é que poderá ser transparente, contrariamente ao mundo das apostas ilegais, que revela um submundo criminoso. Segundo Aristóteles, o jogo, tal como a vida, provoca o desenvolvimento de dois “v”, a virtude, sendo esta uma disposição constante para fazer o bem, e o vício, uma disposição para fazer o mal. Ora, o que defendemos, e devemos promover, é que a aposta no jogo seja algo saudável e não um hábito viciante, e se assim for, devemos corrigi-lo, pois todo vício limita a nossa liberdade e realização plena.

Promover as virtudes e valores no desporto é a missão do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED) sediado no Instituto Português do Desporto e Juventude. Centramos a nossa ação na formação de agentes desportivos e de crianças, nossos públicos-alvo, pois é pela formação que se consegue incutir valores e mudar comportamentos. Disponibilizamos um conjunto de publicações ligadas à temática da ética desportiva, umas mais pedagógicas, outras mais de investigação; salientamos a criação do Código de Ética Desportiva, uma referência no dever ético a nível desportivo em Portugal. E temos um conjunto de embaixadores do PNED, referências desportivas que nos ajudam a promover um desporto aliado aos valores.

Criámos o “cartão branco”, um recurso pedagógico ao dispor dos árbitros e juízes que visa reconhecer o gesto positivo e mostrar o lado das virtudes no jogo. Até ao momento, foram mostrados cerca de 3 mil cartões nas diversas modalidades desportivas. A “bandeira da ética” foi outro recurso criado pelo PNED, tendo como objetivo certificar as boas práticas a nível da ética desportiva e dos valores no desporto, dando visibilidade e reconhecendo o que de bom as organizações desportivas fazem nesta área. Esta certificação tem servido para as entidades criarem iniciativas muito louváveis ao nível da ética desportiva, tendo já sido certificadas 339 entidades.

Marcados por uma pandemia que teima em permanecer entre nós, esta, se alguma coisa trouxe em relação ao desporto, foi que pela ausência da prática desportiva podemos valorizar o que nos “foi tirado”. Quantas vezes só damos valor a alguma coisa quando deixamos de a ter. Acredito que no “regresso” do desporto haverá uma maior valorização desta atividade humana, precisamente porque o desporto, através dos seus valores e da sua capacidade de realizar o homem, irá afirmar-se num ambiente de maior dinamismo e vitalidade, para bem do desporto e de todos nós!

Fonte: O Jogo