Autor

Jorge Faustino

Data: 21/12/2018

VAR: Um novo critério

Na passada semana terminei o meu artigo de opinião neste espaço da seguinte forma: “Portanto, senhores comentadores, jornalistas, treinadores, dirigentes e, tristemente, alguns ex-árbitros, vamos recordar e ter presente que o videoárbitro só pode intervir em lances de penálti, golos, expulsões e troca de identidade de jogadores em situações em que as imagens televisivas demonstrem clara e inequivocamente (sem margem para qualquer discussão) que a decisão inicial do árbitro foi errada.”. À luz daquilo que foram as intervenções dos videoárbitro nesta jornada, reconheço que me terei precipitado…

O choque entre o guarda-redes Marco Rocha e Herrera no interior da área do Santa Clara foi uma situação de clara e óbvia infração do guarda-redes que justificasse assinalar um pontapé de penálti favorável ao FC Porto? Não me parece.

No mesmo jogo, a possível falta de Soares sobre defensor do Santa Clara, na jogada que resultou em golo para o FC Porto, era uma situação clara e óbvia? Também não me parece.

No Sporting – Nacional, o choque de cabeças entre Júlio César e Diaby no interior da área do Nacional foi uma situação de clara infracção do defensor que justificasse que o VAR tenha chamado o árbitro para alterar a decisão de nada assinalar? Não.

E ainda nesse jogo, a situação em que o defesa do Nacional, Felipe, tentou jogar a bola e acertou com o calcanhar na cabeça de Bas Dost foi uma falta tão claramente grosseira ou violenta que justificasse a mudança de cartão amarelo para vermelho? Novamente, não me parece.

Os lances que acima apresentei vão totalmente contra aquilo que na passada semana defendi e que vinha sendo aplicado até ao momento. Nos lances descritos, os videoárbitros dos respetivos jogos não terão chamado o árbitro por terem identificado um erro claro e óbvio, mas sim porque terão detectado um lance com elevado grau de dúvida. E aqui está a mudança de paradigma. O que vimos esta jornada faz parecer (não temos nenhuma comunicação formal que o garanta) que o critério de intervenção dos VARs terá sido alargado do “erro claro e óbvio” para a “suspeita de erro”.

A vantagem deste alargar de intervenção do VAR reside no facto de que os árbitros, passando a ser mais vezes chamados ao monitor, poderão assumir ou alterar as suas decisões iniciais com mais fundamento do que até aqui. A principal desvantagem, está relacionada com o facto de que alargando a intervenção do VAR, estamos a dar possibilidade que se questione, em mais situações, o porquê da não intervenção do mesmo. O verdadeiro futebol pode beneficiar da vantagem. A desvantagem que mencionei vai servir para dar audiências às guerras do “eles são beneficiados e nós prejudicados”… mas isso não é futebol.

 

Artigo publicado no jornal Record na edição de 19Dez2018