Autor

Jorge Faustino

Data: 18/01/2019

VAR no bom e no mau

Jogou-se este sábado mais um clássico do futebol português. Um clássico em que para a história fica um empate a zeros e pouco mais. Golos espetaculares? Não houve. Fintas e jogadas empolgantes? Quase nada. Grandes remates e grandes defesas? Uma ou outra, mas nada que nos recordemos daqui a umas semanas. Casos graves de arbitragem? Não. Não será pela arbitragem que este jogo será recordado. A arbitragem não foi isenta de erros, mas considerando que era um clássico com grande carga emocional (como quase todos), a não exibição de um segundo amarelo a um jogador (principal erro da arbitragem) não pode merecer o destaque de “afronta ao bom nome do futebol português e da nossa arbitragem”. Portanto, avancemos.

Um lance ocorrido no final do jogo Boavista – Marítimo, e que resultou na anulação do que seria o golo do empate do Boavista, é mais difícil de aceitar e/ou justificar. Foi sancionado um fora-de-jogo a um jogador do Boavista que, estando efetivamente adiantado, não tomou qualquer parte ativa na jogada. Aceitando que o árbitro e o árbitro assistente poderiam ter sido inicialmente iludidos pela posição do jogador, levando-os a pensar que este teria estorvado a visão do guarda-redes, é mais difícil compreender a manutenção dessa decisão numa realidade de futebol com videoárbitro. O VAR chamou o árbitro para rever a decisão de anular o golo. A falha final, e por isso a mais grave, aconteceu na seleção das imagens exibidas ao árbitro e na forma como este as aceitou sem pedir outros ângulos. Resultado: um golo mal anulado, um resultado diretamente influenciado por uma decisão da equipa de arbitragem e um péssimo momento na “vida” da videoarbitragem.

Nesta jornada, há um outro lance que também envolveu a intervenção do VAR e que merece destaque. A expulsão de um jogador Santa Clara no jogo contra o Benfica. Começo por esclarecer que concordo com a decisão tomada: falta fora da área e expulsão por anular uma clara ocasião de golo. A decisão técnica, falta fora da área em vez de pontapé de penálti, parece-me ser facilmente aceite pela maioria dos adeptos. A mudança do cartão amarelo, inicialmente exibido, para vermelho direto, com respetiva expulsão, suscitou mais dúvidas. A discussão centrou-se em duas questões. Estaria o jogador do Benfica numa situação de clara ocasião de golo? Se fosse pontapé de penálti, o jogador teria de ver apenas cartão amarelo? A primeira, mais discutível, é justificável se observarmos os factos: o jogador do Benfica entrava na área, seguindo na direção da baliza, com a bola controlada e tendo apenas o guarda-redes adversário pela frente (dica: em casa, para ajudar a avaliar se uma jogada é um a clara oportunidade de golo, podemos parar a imagem no momento da falta para mais facilmente avaliar os pressupostos que acima identifiquei). Quanto à cor do cartão, importa recordar que quando as faltas são feitas sem ser na tentativa de jogar a bola (casos como empurrar ou agarrar) deixa de se aplicar o “downgrade” da sanção disciplinar, mantendo-se a sanção inicial. Quero com isto dizer que, mesmo que o árbitro tivesse mantido a decisão de assinalar pontapé de penálti, teria mudado de cartão amarelo para cartão vermelho. É de lei.

 

Artigo de opinião publicado no jornal Record na edição de 16Jan2019