Ouvi alguém dizer em tempos que há dois tipos de pessoas no mundo: as que fazem e as que criticam.
Concordo e diria mais: há as que fazem o que os outros criticam e as que criticam o que os outros fazem.
Cada qual escolhe o lado em que quer estar, sendo certo que só progride quem arrisca. Quem tem coragem para abandonar a sua zona de conforto. A iniciativa é o melhor início para encontrar um caminho.
Infelizmente há ainda muita gente (demasiada até) que escolhe o outro lado, o da passividade, da inércia e da falta de rumo. Gente que passa a vida a apontar o dedo aos outros sem sequer saber o que é estar na sua pele.
O advento das redes sociais veio dar voz e rosto a muitos deles, alguns até nossos amigos. Pessoas que pensávamos conhecer bem, mas que afinal não conhecemos de todo.
Pessoas magoadas e ressentidas que escolheram o lado da censura, da crítica fácil, da autocomiseração, da perseguição e da desconfiança.
Deve ser triste morar aí, nessa zona cinzenta, cheia de amargura e raiva acumulada. Cheia de sofrimento e dor.
Mas há muita gente boa que pensa mal e que não faz nada. Apenas desabafa e espera que o mundo mude, que se identifique consigo, que tenha pena de si.
Quem não tem um ou dois amigos assim, que passa o tempo todo no bota-abaixo, num autêntico desfilar de rancor… mas sem sair do sofá, sem mexer um dedo, sem propor uma solução?
Mas com o passar do tempo essa passividade recalcada deu origem a uma outra estirpe. Alguns deles passaram de críticos de poltrona a especialistas que dominam tudo o que é assunto da atualidade.
Eles agora são médicos, virologistas, epidemiologistas, cientistas, enfermeiros, políticos, banqueiros, gestores, meteorologistas, investigadores, polícias, advogados, juízes, professores, árbitros, treinadores e dirigentes. Eles sabem tudo sobre tudo e mais, muito mais, do que quem realmente sabe. Do que quem passou anos e anos a especializar-se numa área concreta.
É o mundo ao contrário, o mundo dos achistas, dos donos virtuais da verdade universal. O mundo dos que falam, opinam e comentam, mas que raramente têm coragem para calçar os sapatos dos outros e percorrer o caminho que eles já percorreram.
Esta tendência de conduta – que é tudo o que uma sociedade moderna não precisa – não mora apenas no nobéis da literatura que se escondem atrás de um teclado. Não mora apenas nos amigos que habitam nos Twitters e Facebooks das nossas vidas.
Ela estende-se perigosamente para quem tem palco mediático. Para aqueles que têm tempo de antena para (de)formar opinião, influenciando o modo como os outros pensam.
Quem não conhece meia dúzia de Tudólogos que levante o braço.
O “Tudólogo” é aquela pessoa muito especial, que tem licenciatura e mestrado em todos os cursos superiores que existem e que já desempenhou todas as funções que há no mundo. Por isso, sente-se totalmente legitimada para opinar, de cátedra, sobre tudo e mais alguma coisa.
O “Tudólogo” é geralmente bom a comunicar e a argumentar. Tem um ego gigante porque acha que é muito bom no que faz. É alguém que está realmente convencida que sabe mais do que quem sabe. O “Tudólogo” raramente admite estar errado, porque tudo o que diz está certo.
Com um mundo assim, tão cheio de gente magoada ou de doutores doutorados em tudo o que mexe, corremos o risco de ficarmos mais pobres. De não evoluirmos.
Temos que fazer parte da solução e não do problema. Temos que olhar para a parte do copo que queremos encher e não apenas para aquela está vazia.
Temos que propor, que acrescentar valor, que apresentar propostas e soluções. Temos que implementar e ousar. Temos que tentar, que fazer, que criar. Sem medo de errar. Sem medo de repetir. Sem medo de recomeçar. Se cada um fizer a sua quota-parte, todos farão a diferença.
O pior que nos pode acontecer é ficarmos do lado de quem se queixa ou de quem só aponta o dedo. Esses raramente fazem. Só comentam. E nós somos mais do que isso.