Autor

Duarte Gomes

Data: 10/01/2022

Por cada tiro que derem neste enorme porta-aviões, outros aparecerão no horizonte, ainda mais independentes e mais livres

Acabei oficialmente a minha carreira em janeiro de 2016 e, poucos meses depois, fui convidado pelo então Diretor de Informação da SIC para ser comentador em matéria de arbitragem.

Ouvi a proposta — tal como ouvira antes outra, igualmente clara e transparente — e, depois de alguns dias de reflexão, decidi aceitá-la.

O “sim” demorou algum tempo por várias razões que, naquele contexto e circunstância, confundiam o meu lado emocional com o racional:

Por um lado, tinha a noção que abraçar algo tão desafiante poderia ter implicações na minha vida pessoal e profissional (e teve). Por outro, tinha a convicção que uma mudança tão radical implicaria alterações profundas em hábitos enraizados há décadas. Mas o maior motivo foi o compromisso. O compromisso verbal anterior, assumido com um amigo de sempre, que acabou por nunca se cumprir.

Por isso, quando aceitei o convite do Alcides Vieira, estava ciente do que me esperava. Sabia que passaria de “ladrão” a crítico, de “corrupto” a “traidor”.

Foi por isso que coloquei uma única condição na altura: ter tempo, espaço e oportunidade para fazer um trabalho diferente. Um trabalho que me permitisse ir além do mero rótulo sobre a decisão, do mero carimbo no penálti ou na expulsão.

Queria realizar um trabalho de natureza mais didática, ainda que frontal, independente e sem laivos de corporativismo. A SIC (e todo o Grupo Impresa) prometeram que assim seria… e cumpriram.

Posso dizer-vos, com a maior sinceridade possível, que nesta casa há palavra, há compromisso e há respeito. Nesta casa, há algo ainda mais importante: liberdade.

Liberdade para escrever e dizer o que se quer, o que se sente, o que se pensa, a toda a hora. Sem filtros, sem ses nem mas.

Nesta casa, não há o risco do telemóvel tocar logo pela manhã, com gente indignada a censurar isto ou a pôr em causa aquilo. Não há SMS tardios a contestar opiniões ou a sugerir mudanças de rumo. Não há telefonemas indignados para superiores hierárquicos ou mensagens pseudo-ameaçadoras.

Nesta casa não se mascara nada, não se promovem operações de cosmética sucessivas nem se incentivam idolatrarias provincianas. Nesta casa pode-se falar à vontade, desde que não se destrua ou magoe. Pode-se discordar sem corrermos o risco de sermos afastados de um cargo jeitoso ou de uma lista de wannabes.

É por isso que a SIC e a SIC Notícias, como o Expresso, a Tribuna, a Opto, o Blitz e as restantes empresas do grupo são diferentes.

E é por isso que o covarde ataque informático de que foram alvo é, mais do que qualquer outra coisa, um ataque à liberdade de todos nós. É um ataque a todos os que sabem viver em democracia. A todos os que ousam partilhar a sua opinião. É um ataque ao direito à informação.

Por cada tiro que derem neste enorme porta-aviões, outros aparecerão no horizonte, ainda mais independentes e mais livres. Ainda mais fortes.

Um abraço enorme à vasta equipa do Grupo IMPRESA, na certeza que voltará em breve e ainda melhor.

Esperem para ver.

Fonte: Expresso