Autor

Duarte Gomes

Data: 29/10/2020

Os árbitros, quando erram, são castigados?

A opinião pública tem esta dúvida desde sempre, provavelmente porque nunca percebeu bem a dinâmica interna. Na verdade, nunca ninguém lhes disse o que acontece a uma equipa de arbitragem que num jogo comete erros grosseiros, daqueles óbvios e incompreensíveis aos olhos do adepto comum.

Há, na maioria das pessoas, uma convicção que acolhem como verdade:

– O jogador que falha o golo pode ir parar ao banco de suplentes ou até ser dispensado; aquele que é expulso será suspenso e não jogará no(s) desafio(s) seguinte(s); e o treinador que não apresente resultados positivos acaba por ser despedido.

Para elas, só os árbitros parecem escapar à incompetência momentânea. Só eles parecem ser imunes ao erro e às suas consequências.

Na realidade, as coisas não são assim. Uma coisa é não haver divulgação do que acontece, outra bem diferente é não haver sanção na prática. E ela existe.

A primeira das penalizações que os árbitros sofrem acontece logo em campo, na avaliação à sua atuação. O seu trabalho é analisado por técnicos qualificados em todos os jogos.

Cada atuação corresponde a um relatório minucioso, com uma nota final associada. O observador pode e deve confirmar (com recurso às imagens, logo no estádio) os lances mais relevantes, que pesam sobremaneira nessa ponderacão.

Uma, duas, três más notas podem significar um dissabor enorme no final da época: a classificação irá refletir as penalizações e a probabilidade de alguns perderem as insígnias da FIFA (se forem internacionais) ou serem despromovidos é proporcional ao número de más notas.

Além desse dano – irreversível para a carreira, a médio prazo – há também a questão do escrutínio público.

O povo não perdoa e um erro grave num jogo mediático é sinónimo de tempos difíceis: os insultos, ofensas e ameaças vêm de todos os lados e por todas as vias. Não apenas para quem erra em campo, mas também para a mulher, para os filhos e até para os pais. Não há perdão. É um vale tudo que tantas vezes acaba em vandalismo ou agressão. A pressão emocianal que isso causa é tremenda e injusta, porque essa “sentença” raramente separa o profissional do pessoal.

Nas televisões os especialistas de ocasião seguem linha idêntica, tirando partido do erro que prejudica, para vestirem a casquinha de calimeros. Jornais, blogs e redes sociais fazem o resto do trabalho, expondo alguém que errou em campo como um criminoso que degolou, matou ou roubou alguém de forma premeditada.

Em bom português, é um esgoto a céu aberto, com a complacência de um regulamento disciplinar fraco e insuficiente.

Se a auto-estima, nesses dias, anda pelas ruas da amargura, ela fica pior quando há a noção que não haverá jogo para arbitrar durante uma, duas ou três jornadas. Tirar um “apitadela” a um árbitro é como tirar a bola de um jogador: terrível. Mata devagar. Corrói por dentro.

É que só é árbitro quem é apaixonado pela função (obviamente). Deixar de dirigir um desafio já é mau. Quando isso acontece por castigo é mais angustiante, perante a família, vizinhos, amigos e os próprios colegas. Fica sempre a tal sensação de que não desiludiram, de que se portaram mal, de que não estiveram à altura. Não é fácil, vão por mim. Não é fácil.

Last but not least… há a (importante) questão financeira: hoje em dia, um árbitro de primeira categoria depende muito do rendimento que obtém nos jogos. Há alguns – não todos – que têm uma remuneração fixa mensal, mas essa varia em função da categoria/estatuto. Mas deixar de fazer jogos é sempre sinónimo de deixar de receber o valor do prémio respetivo. O tal que paga as contas.

Não conheço nenhum jogador ou treinador que receba o salário ao jogo, portanto pelo menos eles não conhecerão essa sensação. Ainda bem.

Que não restem dúvidas: os árbitros de topo são castigados sim e de forma incisiva, firme e que dói em todo o lados. No bolso, na alma e no coração. Até aí é preciso que sejam resilientes e que se superem, para que o regressar aconteça de forma segura, forte e comprometida.

Fonte: SIC Notícias