“Paciência” é uma palavra interessante, porque tem várias definições. Por um lado, reflete a faculdade de não desistirmos facilmente. Por outro, é a tolerância e constância que colocamos no que fazemos. Mas “paciência” pode também ser definida como a capacidade de lidarmos com algumas contrariedades, de forma calma e resignada. De forma tranquila.
Aqui ou ali, todos nós já testámos a sua elasticidade ao limite. Todos temos os nosso dias, ninguém é de ferro.
Ultimamente reconheço que a minha paciência já não é o que era. Deve ser da idade, mas ando francamente saturado de ver, ler e ouvir disparates uns atrás dos outros.
Estou cada vez mais intolerante a gente tonta, a pessoas que insistem em colidir com os outros, sem que eles colidam com elas. Estou cada vez mais intolerante aos que se consideram distintos: aos que acham que ser sistematicamente do contra é sinónimo de inteligência e independência. De seriedade.
Não sei bem o que se passa com eles(as). Sinceramente.
Não sei se são infelizes ou se estão a passar por uma fase má. Não sei se intrinsecamente são más pessoas ou se apenas se sentem perdidas. Há também a possibilidade de serem apenas estúpidos(as) que nem portas, o que de algum modo atenua a coisa. O que sei é que, por uma ou por outra razão, não se poupam a magoar, ofender e insultar quem, a dado momento, tem alguma notoriedade ou exposição pública: políticos, desportistas, atores, cantores, seja quem for, de onde for.
Se o que faz é assunto, há sempre quem tenha o dedo no gatilho, pronto a atirar para matar. De preferência, com estilhaços por todo o lado.
Sendo isto verdade para muitas áreas das nossas vidas, parece ser no tema “futebol” que o azedume maior vem ao de cima.
Aí, meus amigos, seja árbitro ou treinador, seja jogador ou dirigente, seja comentador ou jornalista… porrada garantida.
É verdade que sempre foi mais fácil criticar o que os outros fazem do que fazer o que os outros criticam, mas caramba… não precisavam de levar a coisa tão a peito.
O que se lê e ouve por aí fora é uma espécie de bar aberto ao coice reiterado, reflexo da impunidade gritante que a justiça permite à internet.
Eles(as) insultam, mentem, difamam, elaboram montagens falsas, descontextualizam opiniões e descredibilizam. Eles(as) provocam, ameaçam em público, injuriam em privado, ofendem e gozam. Todos os dias, a todas as horas, com toda a gente que se atravesse no assunto.
Ninguém faz nada, ninguém diz nada. Dão gostos e partilhas, comentam e riem. Põe polegares para cima.
Para quem escolhe a comunicação aberta como forma de fazer o que mais gosta, há dias em que a coisa escala para patamares inacreditáveis, de uma violência atroz.
E, lá está, às vezes acordamos bem, encaixamos melhor, relativizamos a situação em paz, com serenidade… mas há dias em que simplesmente não há pachorra.
Chego à conclusão que essa é uma doença incurável. Não se pode normalizar uma pessoa que não nem quer ser normal.
Por cada um que aceita uma ideia ou que a rejeita, mas com respeito e sentido crítico, há uma dúzia que a rebenta de cima a baixo, com palavrões e violência, atacando também o mensageiro.
É assim, literalmente assim e não vale a pena negá-lo.
Esta é uma sociedade globalmente inculta, com gente pequenina e infeliz nas suas próprias vidas. Está-lhes no sangue o azedume convertido em ataque, a inveja transformada em raiva. O ódio pelos outros é a única forma que encontram para terem alguma paz, para validarem a sua própria existência.
Deve haver medicação para isso.
Até lá, apetece mesmo dizer: “Fiquem a falar uns com os outros, que nós temos mais que fazer”.