Autor

Jorge Faustino

Data: 06/01/2019

O pé de Jonas

Tem sido recorrente usar este meu espaço de opinião para esclarecer dúvidas e mal-entendidos que vão surgindo sobre o videoárbitro e respetivo protocolo. Nesta jornada, no seguimento do jogo Portimonense – Benfica, alguns comentadores voltaram a fazer afirmações que, para além de demostrarem desconhecimento próprio sobre o protocolo, divulgam e promovem ideias erradas sobre o mesmo.

“Uma vez que o árbitro foi chamado pelo VAR para ver as imagens no monitor faz com que tenha de exibir vermelho direto ou que não faça nada. Não pode exibir um segundo cartão amarelo ao atacante do Benfica”. Foram afirmações como esta, sobre o lance do qual resultou a expulsão de Jonas por falta sobre o guarda-redes Ricardo Ferreira, que estão em causa quando afirmo que existe grande desconhecimento sobre o protocolo por parte de muitos daqueles que, nos canais de televisão, são chamados a opinar sobre futebol e sobre arbitragem.

Vamos por partes.

As indicações da FIFA aos árbitros internacionais, e por consequência da FPF aos nossos árbitros, vão no sentido de que uma ação de um jogador que faz falta ao acertar com o pé na cabeça de um adversário, a uma altura onde não é suposto jogar-se com o pé, deve ser encarada no mínimo como negligente (cartão amarelo).

Jonas acertou com o pé na cara/cabeça do guarda-redes do Portimonense. Fê-lo na tentativa de jogar a bola, mas fê-lo consciente da altura a que estava a levantar o pé, tanto que, quando se apercebeu da “chegada” do guarda-redes, ainda tentou encolher a perna. O árbitro não teve, em campo, a perceção de ter havido uma falta e por isso deixou prosseguir a jogada, apenas interrompendo quando se apercebeu que o guarda-redes ficara lesionado. Falhou. Acontece.

Enquanto Ricardo Ferreira era assistido, o videoárbitro reviu o lance e terá entendido que a entrada de Jonas era merecedora de cartão vermelho direto. Este é o único motivo que poderá ter levado o VAR a chamar o árbitro nesta situação. O facto de Jonas já ter um amarelo terá facilitado esta leitura do VAR. Em boa verdade, o mais justo para com o futebol, após esta falta e considerando que Jonas já tinha um cartão amarelo, era que o jogador do Benfica fosse expulso.

Aqui começa o equívoco de alguns comentadores. Depois de ver as imagens Manuel Mota tinha duas possibilidades: aceitar a indicação do VAR ou recusá-la. A aceitar, tinha de fazer o que fez: expulsar com vermelho direto o jogador do Benfica. Não aceitar a indicação do VAR não obrigava a que Manuel Mota mantivesse a sua decisão inicial de não atuar disciplinarmente. Poderia ter expulso Jonas com segundo cartão amarelo. O protocolo prevê e permite a exibição de um cartão amarelo quando “uma revisão de potencial cartão vermelho por falta grosseira mostra claramente que a infração foi ‘negligente’ e não ‘falta grosseira’”.

 

Artigo de opinião publicado no jornal Record na edição de 5Jan2019