Autor

Jorge Faustino

Data: 31/10/2018

O golo do videoárbitro

O golo de Felipe, aos 22 minutos do jogo Porto – Feirense, terá sido o lance mais marcante da jornada deste fim-de-semana. Não pelo golo em si, mas por toda as questões de arbitragem que envolveram a validação do mesmo: a indicação inicial do árbitro assistente, a intervenção do videoárbitro e a decisão final do árbitro.

O lance é fácil de explicar: bola cruzada para a área de baliza do Feirense onde Felipe, isolado de marcação, cabeceou para dentro da baliza. A dúvida que ficou foi se, no momento do cruzamento, Felipe tinha o tronco adiantado relativamente ao pé esquerdo de Tiago Mesquita (zona do corpo do penúltimo defensor que poderia colocar, ou não, o central do Porto em posição legal).

O árbitro assistente, que estava razoavelmente bem posicionado para avaliar o lance, levantou a bandeirola indicando que Felipe estava adiantado e que, por isso, o golo seria inválido. Considerando a velocidade a que o lance ocorre e a dificuldade em perceber o posicionamento do pé do defesa, eu aceitaria, compreenderia e, até, defenderia qualquer que fosse a decisão que este tivesse tomado. Tomou a sua decisão e, na minha opinião, acertou.

O videoárbitro, sempre que acontece um golo, tem de verificar toda a jogada para se certificar que nenhuma infração da equipa atacante na construção da jogada para golo ficou por assinalar. Deve, assim, intervir sempre que detetar um erro claro da equipa de arbitragem. Repito, um “erro claro” e não uma situação de dúvida porque, na dúvida, deve aceitar a decisão inicial dos seus colegas de campo. Olhando para o lance em causa e considerando este princípio de intervenção do VAR, devemos partir do princípio que este entendeu que Felipe estava claramente em jogo. Não concordo, não percebo e não consigo justificar esta intervenção.

Desde que o videoárbitro foi introduzido no futebol que afirmo que a maior descredibilização que este “sistema” poderia sofrer, seria os adeptos sentirem que um VAR “mudou” uma decisão boa, ou pelo menos não claramente errada, para uma má decisão. Isto aconteceu este fim-de-semana. Não pode acontecer.

O árbitro foi, ele mesmo, rever o lance e aceitou a indicação do VAR para validar o golo. Tendo de tomar decisão com base em imagens que não mostravam claramente nem uma situação nem outra, e na pressão de ter de escolher entre a opinião de um assistente que apenas viu o lance corrido e a de um videoárbitro que, antes de o chamar, já teria revisto o lance várias vezes, terá ido pelo mais fácil, aceitar a opinião do VAR. Errou. Assumiu a decisão, mas errou.

Três notas:

  1. A falta de conhecimento mais aprofundado que muitos agentes do futebol e da comunicação social têm sobre o protocolo do videoárbitro também ajudou à discussão. Houve muitos a dizer que o árbitro não podia, numa análise de fora de jogo, ir visionar as imagens, tendo de aceitar a opinião do VAR. Errado. O protoloco refere que, por norma, em situações factuais como análise de uma posição de fora de jogo, o árbitro deve aceitar a indicação do VAR sem ir verificar as imagens. O mesmo protocolo refere, no entanto, que o árbitro é sempre o último decisor e que, sempre que o VAR sugira uma revisão/alteração de uma decisão, o árbitro pode ir ao monitor. Assim, o facto de Rui Oliveira ter ido ver a imagens, não foi o violar de qualquer regra do protocolo. Está previsto.
  2. O Conselho de Arbitragem terá chamado Rui Oliveira e Vasco Santos, árbitro e videoárbitro respetivamente, para lhes pedir esclarecimentos. Terá considerado ter havido um atropelo aos princípios de intervenção do VAR demasiado óbvio e grave para passar em claro?
  3. No início da época este Conselho de Arbitragem afirmou que a curto prazo os videoárbitros teriam acesso a linhas virtuais para análise dos foras-de-jogo. Ainda não aconteceu. Teria este erro sido evitado?

 

Artigo publicado no jornal Record na edição de 31Out2018