Autor

Duarte Gomes

Data: 02/03/2022

O desporto está a ser exemplar na forma como se tem posicionado após a invasão à Ucrânia

O regresso da guerra à Europa é um tema tão avassalador e relevante, que deixa pouca margem para escrever sobre qualquer outro assunto.

É certo que a vida não pára, como é certo que há – como sempre houve – outros conflitos sangrentos, mas sejamos claros: este tem contornos diferentes. Este tem desenho distinto.

Estamos a falar de uma agressão unilateral contra uma nação que assenta toda a sua vida recente numa democracia. Numa democracia plena.

A Ucrânia é um país que dá aos seus cidadãos direitos, liberdades e garantias. Mas direitos, liberdades e garantias de verdade, não de faz de conta. Os ucranianos não vivem oprimidos nem são controlados na forma como agem, opinam ou manifestam. São um povo feliz, genuinamente feliz, que escolheu os seus governantes em consciência e de forma legítima.

A Ucrânia, que tem quase 45 milhões de habitantes, não assenta a sua existência política atual num qualquer regime ditatorial, onde os direitos de cada um são poucos ou nenhuns. A Ucrânia não apoia ativamente grupos fundamentalistas, não é amiga de organizações terroristas nem recorre a métodos terceiro-mundistas para fazer aquilo que designa como justiça.

A Ucrânia não tem na sua presidência gente do quilate moral de Lukashenkos, Maduros ou Al-Assad’s.

É por isso que isto choca ainda mais. Por isso e porque tudo isto acontece aqui ao lado, num continente evoluído e que se diz pacífico, que não via um cenário de guerra entre vizinhos há muitos, muitos anos. Nenhuma invasão é louvável e nenhum invasor é elogiável, mas entrar na casa de um ladrão é muito diferente do que entrar na casa de gente séria.

Tudo isto tem-nos deixado angustiados, não apenas por sentirmos a injustiça que caiu sobre aquele povo, mas por percebermos que ela foi iniciada às mãos de um regime que historicamente sempre foi propício a momentos feios.

A pertinência das suas motivações (?) podiam até ser debatidas noutro fórum, mas essa janela de sensatez fechou-se a partir do momento em que a decisão foi invadir criminosamente uma casa que não é sua.

O que Putin fez – primeiro na Crimeia e depois em Luhansk e Donetsk (todos territórios ucranianos) – foi, basicamente, o que faria um ladrão armado até aos dentes, ao entrar na caso de um vizinho despido:

– Primeiro anexar a sala e mais tarde a cozinha e o quintal. Depois proibir os seus proprietários de circularem livremente naqueles espaços. A seguir, conquistar o resto da casa à força, matando quem aparecesse pela frente. Por fim, tentar entrega-la a um novo dono, alguém leal, da sua confiança.

Num mundo normal, habitado por pessoas normais e minimamente equilibradas, tudo isto é escabroso. Absolutamente escabroso.

Qualquer ser humano de bem, capaz de se distanciar de ideologias políticas ou partidárias, consegue olhar para tudo isto e condenar. Condenar veemente.

Quem vê em nesta declaração de guerra algo de minimamente legítimo ou justo, não está bem. Não está bem de todo.

O desporto – essa força universal, que mobiliza milhões em todo o mundo – está a ser exemplar na forma como se tem posicionado nesta matéria. Não faltam manifestações individuais ou coletivas de atletas/clubes ou federações a censurar o ataque à soberania de um estado independente, como não faltam medidas sancionatórias entretanto adotadas: a final da Champions League, que se disputaria em São Petersburgo, caiu; o Grande Prémio de Fórmula 1, que seria disputado na Rússia, foi cancelado; e é mais do que provável que o país não seja autorizado a disputar, com a Polónia, os playoffs de acesso ao Mundial.

Tudo isso tem significado e alcance importante. As sanções entretanto aprovadas a outro nível também, mas a verdade é que os ataques a sério continuam, as bombas não param de cair e um país democrático continua a ser esmagado (sobretudo na sua essência e auto-estima), sem que nada nem ninguém consiga ativamente contribuir para o fim do banho de sangue.

O povo russo é também vítima de tudo isto.

Sempre ouvir dizer que o homem é o único animal que mata por prazer. Todos os outros o fazem por instinto de sobrevivência.

Eu diria mais: o homem mata por prazer, por ambição, por megalomania, por ciúmes, por ganância, por loucura, por vingança. Mata por tudo e por nada.

Tão bom a criar, tão impiedoso a destruir. A única parte boa é que a história já provou que todos os vilões têm final infeliz.

Este não será diferente.

Fonte: Expresso