Autor

Duarte Gomes

Data: 03/04/2022

O árbitro, de vez em quando, tem que apanhar forte e feio, porque isso de poder errar é só para alguns

O futebol devia ser, como tantas vezes é, sinónimo de paixão e entretenimento. Devia ser um espaço onde as melhores sensações vêm ao de cima, sob a forma de compromisso e respeito entre todos.

Quando no futebol ocorrem fenómenos de violência, dá-se a negação da sua essência. A agressão física, sobretudo a gratuita, é o limite que nunca pode ser beliscado. É a anulação, a subversão total do espírito desportivo.

Infelizmente ainda há muito para fazer nesta matéria.

Os socos, pontapés e empurrões violentos, que vêm do nada, que surgem inesperadamente, continuam a manchar o nome do nosso desporto-rei, sobretudo nos escalões inferiores, onde o instinto mais primata não resiste à frustração do resultado ou à perceção de que o clube do coração foi prejudicado.

Na semana passada foram colocados a circular vários vídeos onde foi possível ver árbitros a serem violentamente esmurrados na cara, socados no peito e até empurrados escadas abaixo. Tudo porque não arbitraram ao gosto do freguês ou porque o jogo não lhes correu de feição. Quando o jogador falha o golo a um metro da baliza, ninguém lhes bate. Quando o treinador erra claramente no onze ou nas substituições, ninguém o agride. E quando o dirigente, sentada no alto do seu camarote, chama tudo o que é nome à equipa de arbitragem, ninguém o sova. Com o árbitro é diferente. O árbitro, de vez em quando, tem que apanhar forte e feio, porque isso de poder errar é só para alguns.

A verdade racional todos conhecemos: não há um único motivo que justifique que alguém bata em alguém. Não há no futebol, na vida pessoal ou em Hollywood.

E sempre que ouço o clássico: “Sou totalmente contra a violência, mas a verdade é que eles põem-se a jeito”, sei que isso parte de alguém que entende que a violência é um corretivo necessário, quando necessário. É o macho que, se calhar, bate na mulher, ameaça o vizinho ou pega-se com o condutor do lado, quando está a conduzir.

Essas mentalidades – repito, primatas e reveladoras de uma insegurança pessoal atroz – dificilmente serão erradicadas de uma sociedade que, de facto, ainda está muito longe de ser exemplar nesta matéria.

Todos os dias há episódios incontáveis de bullying nas escolas e violência doméstica, de abuso de poder no trabalho e criminalidade nas ruas e de muitas outras manifestações de intolerância. Não era de esperar que no futebol, mundo onde reina a aparência de impunidade, a coisa fosse diferente.

As soluções para questões tão profundas e estruturantes como esta não são pacíficas. Obviamente. Não há nada que se consiga mudar de um dia para outro. Tudo o que é comportamental, cultural, é para ir mudando. Passo a passo, com paciência, determinação e, acima de tudo, firmeza.

E isso é o que falta no nosso ordenamento jurídico e na regulamentação desportiva em vigor.

Por muito que a lei possa justificar a eterna burocracia disciplinar que carateriza o que se pode e não pode fazer, a verdade é que estamos a anos-luz de estar onde podíamos e devíamos estar.

Todos devemos ter a capacidade de aceitar esta crítica e, mais do que rebate-la ferozmente, aprender com ela.

O que acontece em Portugal é muito simples: a justiça está demasiado burocratizada, a Constituição da República Portuguesa oferece demasiados direitos a quem se porta mal e a lentidão com que tudo se resolve é impossível de tolerar.

Nenhuma justiça é forte se for demorada, lenta e pesada. E a nossa é tudo isso.

Enquanto não se conseguir mudar esses paradigmas (e não, não é fácil), os arruaceiros de taberna vão poder entrar em recintos desportivos, bater em pessoas e no fim do dia, pedir indemnizações por danos morais. É o homem a morder o cão à frente de toda a gente.

Não é só mau. É uma vergonha, que convida ao ilícito e jamais será capaz oferecer-nos uma perceção de justiça justa, célere e eficaz.

É como é e é mesmo assim. Justificar o que está mal não resolve.

Fonte: Expresso