Autor

Duarte Gomes

Data: 21/11/2020

Mão na bola e/ou bola na mão? A regra, tal como está, está francamente mal

Há cerca de duas semanas Aleksander Ceferin, Presidente da UEFA, enviou uma carta ao seu homólogo da FIFA, Gianni Infantino, a solicitar que o International Board revisse com urgência a situação das infrações por “mão na bola”.

Não era necessário que a questão chegasse tão longe e tão alto para perceber que a regra, tal como está, está francamente mal.

Sejamos sinceros: a subjetividade inerente a este tipo de lances não é de hoje nem de ontem. Existe há anos e sempre criou celeuma. A verdade é que é muito difícil criar uma norma que seja simultaneamente clara, justa e objetiva.

Aliás, a meu ver, só há duas formas de terminar com esta polémica de vez: ou deixar de punir mãos e braços como faltosos (o futebol mudaria todo o seu paradigma e passaria a chamar-se outra coisa qualquer) ou punir todos os contactos como ilegais (o que, além de injusto, originaria o aparecimento maciço de especialistas que passariam o tempo todo a picar a bola contra as mãos/braços dos adversários).

Ambas são descabidas no contexto do futebol moderno. Mas não sendo assim, tudo o que seja decidido será sempre discutível.

O presidente do organismo europeu considera – bem, quanto a mim – que a regra agora em vigor potencia desconforto e frustração crescente nas equipas, porque tende a sancionar como irregular situações em que é humanamente impossível a um jogador atuar de forma diferente. Há demasiados pontapés de penálti, demasiadas infrações. Há demasiadas decisões injustas a surgir no jogo e isso adultera a verdade desportiva tal como todos a concebemos.

Hoje um atacante que veja a bola ressaltar involuntariamente na sua mão/braço antes de entrar na baliza adversária é punido como se a jogasse propositadamente, mas se isso acontecer na sua zona defensiva, já só é sancionado se fizer gesto deliberado.

Um jogador que, por força da sua impulsão, tenha o braço momentaneamente ao longo/acima do nível do ombro, é quase sempre penalizado se a bola tocar-lhe, mesmo que esteja de costas, não a veja partir e o remate tenha sido feito à queima roupa. Mesmo que, na verdade, o braço não pudesse estar humanamente posicionado de forma diferente, porque o salto à bola exigia aquele exato tipo de movimento.

Não pode ser. A subjetividade não se resolve assim, com mais punição.

E AGORA?

A verdade é que jogadores têm braços e não os podem cortar para jogar futebol sem correr riscos. Não se pode achar normal que alguns defesas, no interior da sua área, abordem as jogadas em posições caricatas e antinaturais, só para evitar eventual punição por parte do árbitro.

O desafio da lei, nesta matéria, é grande e dificilmente será consensual mas é possível melhorar a letra e o espírito. É possível acrescentar justiça e retirar ruído.

Muitas vezes, as situações que parecem mais complicadas resolvem-se da forma mais simples.

Fonte: Expresso