Autor

Jorge Faustino

Data: 21/02/2019

Lances raros, não tão raros

As Leis de Jogo preveem uma série de situações que raramente acontecem. O protocolo do vídeo-árbitro também o faz. Há, no entanto, alguns lances que se previam raros, mas que afinal não são assim tão raros. Um penálti não sancionado antecedido de uma falta atacante, também ela não detetada pela equipa de arbitragem em campo, é uma situação pouco comum que já aconteceu algumas vezes.

No Sporting-Sp. Braga, Fransérgio partiu de posição irregular não sancionada para, depois, ser empurrado na área do Sporting por Coates. O empurrão não foi claro, logo aceita-se a decisão da não intervenção do VAR. Mas, e se tivesse sido cometida uma clara e óbvia falta para penálti? Como deveria o VAR proceder?

Numa fase inicial do projeto VAR, as indicações eram no sentido de que, havendo um penálti precedido de infração atacante, o VAR deveria abster-se de intervir, uma vez que a sua indicação de penálti seria anulada pela também sua indicação de sancionar a falta atacante inicial.

Atualmente, as indicações vão noutro sentido. Sempre que haja um claro penálti por sancionar, o VAR deve alertar o árbitro desse facto. Isto mesmo a saber que uma possível reversão da decisão inicial, de deixar prosseguir sem marcar penálti, vai também ela ser anulada por uma falta que o mesmo VAR verificou ter existido antes do penálti.

A razão desta mudança está relacionada com o facto de se entender ser importante mostrar às equipas e público que a equipa de arbitragem (incluindo o VAR) não deixou escapar um penálti. Com este modus operandi, o VAR deixa claro para todos que a falta para penálti foi por ele detetada, mas que houve uma infração anterior que anulou a decisão de assinalar esse penálti.

Lance semelhante aconteceu no FC Porto-V. Setúbal. Corona, partindo de posição irregular não sancionada, sofreu uma entrada em ‘tackle’ de Sílvio que lhe acertou com a sola da bota nas pernas. Este lance teve, no entanto, uma peculiaridade ainda mais rara, a falta (contacto) aconteceu fora do campo, mas com a bola ainda dentro. Ora, quando uma falta acontece fora do campo com a bola ainda dentro, a falta deve ser ‘puxada’ para dentro do campo para o ponto mais próximo onde esta aconteceu. Uma vez que a infração do Sílvio aconteceu para lá da linha de baliza após a área de penálti, teria de ser assinalado um penálti. O VAR não entendeu ter havido falta ou não detetou a situação. Se tivesse intervindo, deveria ter chamado o árbitro para ‘mostrar’ que tinha visto o pontapé de penálti, mas depois teria de dar indicação ao árbitro de que o jogo recomeçaria com um livre indireto favorável ao Vitória, no local onde Corona estava em fora de jogo no momento em que a bola lhe foi passada. As Leis de Jogo nem sempre são fáceis de perceber, quanto mais de aplicar.

 

Artigo de opinião publicado no Jornal Record em 20 de Fevereiro de 2019