Autor

Jorge Faustino

Data: 23/08/2017

Jorge o árbitro. Jorge o homem.

O Jorge Sousa é um árbitro frio. Não se zanga. Não se excede. Não deixa transparecer emoções. Um bom árbitro. Talvez o melhor da arbitragem actual!

Até há poucos dias, qualquer pessoa atenta ao futebol português facilmente concordaria com as afirmações anteriores.

O Jorge Sousa é rude, mal educado, descontrolado, prepotente. Com aquela atitude podemos mesmo dizer que não tem perfil para ser árbitro.

Esta é a imagem que hoje, e por causa de um momento, muita gente têm daquele que na passada época foi considerado o melhor árbitro português.

Já muitos falaram, e vão continuar a fazê-lo até à exaustão e durante muito tempo, sobre as palavras e atitude do árbitro Jorge Sousa. Não preciso dizer muito. Errou. Ponto. Vai, muito provavelmente e ao contrário do que tantas vezes acontece com outros agentes desportivos, ser castigado por esse erro. Ponto.

Mas deixem que vos escreva um pouco, relembrando umas coisas e revelando outras, sobre o Jorge Sousa.

É muito raro ver o Jorge a rir-se dentro de um campo de futebol. Foi essa a atitude que escolheu ter desde sempre na arbitragem. Essa sua forma de estar dentro de campo reflecte a sua postura na arbitragem: sério, focado, dedicado, e honesto. Tudo isto, mais a qualidade das suas decisões (erra como todos, mas é consensual que erra menos que a maioria), fez com que aos 42 anos de idade e após 18 anos a apitar no futebol profissional tenha conseguido o respeito e admiração da maior parte dos colegas, jogadores, treinadores, dirigentes e mesmo adeptos do futebol português.

É muito raro estar com o Jorge e não estarmos todos a rir. É uma pessoa bem-disposta. Com humor inteligente. Em paz com a vida. Em ambiente descontraído diz umas asneiras. Normal… é do norte. Não há ali atitudes falsas ou sorrisos forçados. É o que é!

O Jorge Sousa, para além de ser árbitro, é também um homem. Com forças e fraquezas, qualidades e defeitos, alegrias e tristezas, sucessos e falhanços. Dizer que o Jorge “é também um homem” pode parecer básico mas acreditem que isto de se ser árbitro limita muito a nossa possibilidade de sermos homens! Pois… porque árbitro não tem direito a ter fraquezas, defeitos, tristezas ou falhanços. Não é admissível num árbitro.

O que aconteceu ao Jorge naquele momento… foi homem!

Jorge, valha o que valer, para mim e para muitos a tua condição de grande árbitro não ficou beliscada por um momento de infelicidade do homem.

Jorge, valha o que valer, a admiração que tenho por ti enquanto homem não ficou em nada afectada por este episódio. Só quem não te conhecer poderá achar que aquele momento te define. Aliás, é mesmo necessária alguma má fé para achar que aquela situação pode definir alguém!

Jorge, as palavras acima não querem dizer que não continue a bater no árbitro Jorge Sousa quando este cometer erros em campo. Entenda, o leitor, que este “bater” é uma das palavras que, entre árbitros, usamos para nos referirmos a uma situação em que um de nós “reconhece e aponta” os erros de arbitragem de outro árbitro. Esclareço que o meu “bater” virá sempre, quanto possível, acompanhado por uma explicação na tentativa de ajudar as pessoas a perceber os motivos e contexto de cada decisão.

Jorge, se te mandarem para o caralho* durante 5 jogos, tenta não te zangar muito com o futebol português. Aproveita para gozar esses fins-de-semana com a família e volta com mesma postura que tiveste ao longo de toda a tua carreira. A arbitragem e o futebol português precisam de árbitros e homens como tu.

* Segundo autores conceituados, nomeadamente da Academia das Ciências de Lisboa, a palavra caralho designava a pequena cesta que se encontrava no alto dos mastros das Caravelas. Dada a sua situação, o caralho era um lugar muito instável pois era onde se manifestava com maior intensidade a oscilação e o rolamento lateral da embarcação. Este local, nada agradável, era também e por isso mesmo considerado lugar de castigo e para aí eram mandados os marinheiros que infringiam alguma das normas vigentes a bordo. O prevaricador era então obrigado a cumprir horas e por vezes até dias inteiros no caralho e, quando descia, vinha tão maldisposto que se mantinha quieto por uns tempos.

Fonte: Público