Autor

Duarte Gomes

Data: 10/06/2022

João Pinheiro foi considerado o melhor árbitro português. E as redes sociais reagiram mais uma vez com ofensa, gozo e sarcasmo

João Pinheiro foi considerado, novamente, o melhor árbitro português.

De acordo com a classificação do Conselho de Arbitragem, que obedece a critérios específicos – observação em todos jogos oficiais, notas obtidas nos testes escritos e avaliação nas várias provas físicas -, o bracarense foi o que somou mais pontos entre todos os árbitros da primeira categoria nacional (9.385).

O segundo classificado foi o também internacional Artur Soares Dias (9.326) e a fechar o pódio ficou Nuno Almeida (9.318).

A divulgação pública desta informação gerou, de imediato, as reações esperadas nas redes sociais. A maioria dos internautas expressou o seu desagrado ou sob a forma de ofensa ou através de gozo e sarcasmo. É sempre assim, foi sempre assim, continuará a ser sempre assim.

Tudo o que sejam notícias relativas à arbitragem – não esqueçamos, sector imprescindível em qualquer competição oficial -, serão sempre avaliadas com insultos ou ironia.

E os árbitros que, com o mesmo mérito de qualquer equipa ou jogador, ocupem os lugares cimeiros do seu ranking, serão sempre alvo de crítica ou chacota. Serão sempre ridicularizados porque, por cá, não se respeita a arbitragem nem se valoriza minimamente o esforço e coragem de quem escolhe a carreira mais difícil no desporto.

Se o nome do primeiro classificado fosse outro, como já foi tantas vezes, a história seria a mesma, como já foi tantas vezes. O adepto comum guarda a memória dos momentos em que alegadamente se sentiu prejudicado, negligenciando o facto daquele profissional ter dirigido dezenas de jogos, de várias competições, em dez meses de época.

É uma visão distorcida e parcial? Obviamente que é. E está afunilada a uma perceção redundante, que não define o todo de um trabalho? Obviamente que está. Mas fazer o quê? Esta é a visão possível, a que resulta de uma formatação cultural deficiente, pobre e que está a anos-luz de ser a ideal.

O adepto que hoje critica a “medalha de ouro” de João Pinheiro foi o mesmo que criticou a de outros em anos anteriores e o que mesmo que criticará a de outros nos próximos anos. É um comportamento padronizado, em parte permitido e incentivado pela própria estrutura.

No meio desse contexto, uma análise desinteressada de quem está por dentro do fenómeno:

– O bracarense é, de facto, o melhor árbitro português da atualidade. Aliás, na minha opinião (vale o que vale), os três primeiros classificados são os nossos melhores representantes no sector, neste momento.

Sem desprestígio para todos os outros – e há por ali vários nomes com qualidade ou potencial -, Pinheiro, Soares Dias e Nuno Almeida têm o que mais importa para o “sucesso” nesta atividade: maturidade competitiva, saber tático, saber relacional, experiência acumulada e competência.

Erram (e às vezes erram muito), mas menos que alguns colegas. Isso acontece porque conquistaram o seu espaço e ganharam estatuto. O mérito é deles, só deles. Essa é a sua conquista.

Há uma diferença enorme entre impor autoridade e ser autoritário. Quando jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos respeitam mais, criam menos conflito, protestam e pressionam menos. Aceitam a decisão com mais educação, com menos efervescência, com mais respeito. Assim é mais fácil arbitrar.

Como se vê, ser bom árbitro é muito mais do que conhecer bem as regras do jogo. É saber aplica-las com sensatez, moderação e equilíbrio. É ser justo e coerente. É saber entender a frustração momentânea e tolerar a reação imediata. É saber gerir pessoas que estão sob pressão intensa, a disputarem um jogo que lhes exige muito do físico e das emoções. É traçar, de forma exemplar, a linha que separa o desagrado pontual da grosseria e ofensa direcionadas.

Eles sabem fazê-lo superiormente, tal como muitos outros dos seus colegas que, este ano, não ficaram bem classificados.

Uma palavra de incentivo para esses, outra para aqueles que estão em vias de terminar um percurso longo, nalguns casos de quase três décadas de arbitragem.

Para o ano há mais. E todos são importantes nesta viagem.

Fonte: Expresso