Autor

Duarte Gomes

Data: 09/12/2020

Há, no atual quadro de árbitros, incompetência a mais (admite Duarte Gomes)

A exposição mediática que o futebol tem é pornográfica (o produto vende que se farta), o que origina este escrutínio despudorado de tudo o que mexe. É o salve-se quem puder de audiências e vendas em papel. Sinal dos tempos, dizem.

Em campo, o equipamento de jogadores e árbitros não evita que sejam despidos aos olhos de quem tem vontade e meios para esmiuçar tudo o que fazem.

Esta dificuldade torna a vida e o trabalho de árbitros, assistentes e videoárbitros numa espécie de missão impossível. Um verdadeiro inferno.

Ainda assim, importa sublinhar que isso não justifica tudo nem invalida que se faça, com sentido crítico adequado, uma análise racional da realidade: a verdade é que, em matéria de arbitragem, as coisas podiam e deviam estar melhores do que estão.

Há, no atual quadro de árbitros, incompetência a mais.

Neste momento, Portugal tem duas mãos cheias de árbitros com qualidade (ou talento potencial) e um conjunto de rapazes sérios (e é importante sublinhá-lo), esforçados e bem-intencionados, que não nasceram para aquilo.

Esta constatação não é medida pela quantidade de penáltis mal assinalados ou pelo número de cartões exibidos. Quem nunca? É aferida a outro nível. Ao nível da sensibilidade para o jogo, do conhecimento tático e prático, do bom senso, do relacionamento com os intervenientes, da gestão de emoções, da forma como lidam com a pressão e por tantos outros fatores em que a personalidade e sensatez devem sobrepor-se à tecnicidade dos lances.

É aí que muitos falham. Falta-lhes o saber prático e sem saber prático deixam de ser árbitros e passam a ser apitadores. Parece a mesma coisa mas não é. É o exato oposto.

Agora esqueçamos, por momentos, a árvore e olhemos também para a floresta.

Idêntico exercício deve ser feito quanto a quem desempenha outras funções. Serão todos tecnicamente qualificados e competentes, talentosos e honestos? Acho que não.

Nessa área, bem mais vasta e abrangente e onde mora muito mais gente, não estarei muito errado se disser que encontramos três tipos de personalidades distintas: os que são muito bons no que fazem (e são muitos); os que são voluntariosos mas não têm jeito para o ofício; e os que são mais perversos, movidos a expedientes pessoais. Os que têm uma agenda própria, bem definida e orientada.

Por cada pessoa que nasceu para isto – no talento, dimensão e entrega – há um sobrevivente que quer viver disto.

Reparem… no mundo da bola, encontramos de tudo um pouco: o árbitro mais ou menos capaz; o jogador que se esforça, mas que erra mais do que acerta; o treinador que tenta mas raramente singra; o dirigente que diz uma coisa hoje e amanhã diz outra; o jornalista que não consegue despir a camisola; e o comentador que mora uma nuvem acima de Deus e que se acha a última bolacha do pacote.

O futebol, demasiado desafiante e exigente, continua a ser um oásis para tantos. Como tudo o que é grande, tem gente maravilhosa e gente medíocre. Tem pessoas enormes e tem serpentes de sorriso fácil. Uns são generosos mas limitados, outros são insidiosos e escorregadios.

Como se percebe, é indústria com virtudes e vícios, porque composta por multidões de castas diferentes.

Na verdade, o futebol é um dos poucos universos onde o médico acha que sabe mais de mecânica do que o mecânico e o padeiro mais de engenharia do que o engenheiro. É assistir, sorrir e aplaudir. Com pena e solidariedade.

Tudo isto tem cura, naturalmente. Um dia a vacina virá e estes pequenos vírus morrerão. O espetáculo é demasiado grandioso para depender de figurantes que se acham protagonistas e o jogo voltará a ser entregue a quem importa de verdade.

É inevitável. Vai acontecer, porque as coisas certas acabam por acontecer sempre.

Fonte: Expresso