Há diferenças muito significativas entre apitar e arbitrar um jogo.
Por muito que as expressões possam até parecer sinónimas, elas são – posso garantir-vos – diametralmente opostas.
Para quem está (ou esteve) no meio, as diferenças são muito fáceis de escalonar.
Apitar um jogo é soprar o apito sempre que ocorre algo percecionado como infração e é não soprá-lo quando nada acontece. O apitador é o robot que dirige o jogo. Não fala, não se relaciona, não se aproxima, não gere emoções. Está abstraído do fator humano. Apenas reage, corre atrás do que acontece.
O apitador assinala as faltas que entende assinalar e exibe os cartões que entende exibir, sempre em modo automático, frio e mecânico.
O apitador vive num mundo desligado do mundo em que decorre o jogo, que é jogado, treinado, visto e analisado por pessoas. Pessoas que têm personalidades, caraterísticas e motivações distintas.
A forma como o apitador desempenha a sua função é a que os árbitros mais inaptos descobriram para levar o seu trabalho até ao fim.
É o caminho mais curto e ineficaz, porque afasta por completo a componente humana, que é “só” a parte mais sensível e determinante do jogo. O juiz que o julga alheado dessa realidade nunca julgará bem, mesmo que pontualmente até analise bem.
Arbitrar não. Arbitrar é outra coisa, outro nível.
O árbitro que arbitra pensa, sente e conhece o jogo de forma superior. Erra como o outro, mas erra menos porque sabe que o “processo de decisão” depende de variáveis muito maiores do que a do mero conhecimento teórico das regras.
O árbitro que sabe arbitrar tem inteligência emocional, tem know-how técnico e tem saber relacional. Conhece o meio em que está inserido, percebe o jogo, compreende quem joga, tem noção de tudo o que está em causa, a cada momento.
O árbitro que sabe arbitrar é proativo sempre que a proatividade é exigível. Ele fala, antecipa, avisa, informa. Está sempre por cima do jogo, nunca atrás.
Ele explica, ouve, esclarece, compreende, decide. É firme mas não é obtuso. Usa autoridade sem ser autoritário. Aplica a disciplina de forma natural, sem ser disciplinador, sem parecer justiceiro.
O árbitro que sabe arbitrar lê todos os momentos do jogo e atua em função disso. Sabe “pôr gelo” quando tudo está a ferver, sabe “dar calor” quando a coisa está morna. Ele é parte integrante do espectáculo, não uma alma dissociada que ali caiu de paraquedas.
O árbitro que sabe arbitrar gere emoções como ninguém e sabe evitar que o pior aconteça. Sabe respeitar tudo e todos e por isso é sempre respeitado, mesmo quando falha. Mesmo quando não decide bem.
O árbitro que sabe arbitrar ganha o jogo antes do jogo começar. Ganha-o na forma como se apresenta, como conversa, como resolve pequenos problemas, como orienta questões mais sensíveis para a solução.
Ganha-o na forma como mostra a sua personalidade, a sua predisposição para resolver e para facilitar. Mostra-o na forma como procura não complicar, não melindrar, não perturbar.
Ao contrário do árbitro-apitador, aquele que sabe arbitrar compreende que a vantagem é uma ferramenta técnica para aplicar com sensatez, não sempre que uma equipa fique com posse de bola.
Ele sabe que há palavras feias que nunca ofendem e palavras bonitas que podem levar à expulsão. Sabe definir, de forma superior, a linha que separa a frustração momentânea do insulto inaceitável.
O árbitro que arbitra é um gestor de emoções, de comportamentos, de pessoas. É um psicólogo em campo, que faz o seu trabalho com mestria e coerência.
Na quinta-feira, no Estádio do Dragão, Nuno Almeida cometeu alguns erros no processo de decisão, mas sob o ponto de vista de arbitragem fez um trabalho a roçar a perfeição. O clássico teve um árbitro à altura, que não usou o cartão como arma de arremesso nem o apito como mecanismo de defesa. Arriscou, foi coerente, assertivo, firme e seguro. Nunca se deixou enganar por expedientes malabaristas, contemporizou quando devia, foi implacável quando se impunha. Errou mas menos, muito menos do que todos os outros que estiveram em campo.
A arbitragem de quinta-feira, num contexto antecipado como terrível (e temível) devia passar em todos os cursos de arbitragem sob o tema: “A arte de arbitrar com qualidade em alta competição”.