Autor

Jorge Faustino

Data: 17/05/2019

Errou. E agora?

O Hugo Miguel errou na avaliação que fez de um lance aparentemente óbvio (errou noutros lances e errou para ambos os lados, mas o que interessa neste momento é fazer barulho por causa desse erro em particular). O Luís Godinho, como VAR, errou ao não intervir como poderia/deveria ter feito para ajudar a evitar um erro claro e óbvio. O lance em causa terá tido um peso importante no jogo em causa e, até, na decisão do campeonato. Esta é a minha opinião. É a opinião da quase maioria dos agentes da arbitragem e é, até, a opinião da quase maioria dos adeptos de futebol, independentemente da cor clubística.

E agora? Agora, e até ao próximo sábado onde ainda tudo poderá mudar, o Benfica diz que não fala de arbitragem e põe o mérito do primeiro lugar no trabalho do treinador e dos seus jogadores, esquecendo as muitas vezes que foi beneficiado por decisões de arbitragem ao longo da Liga.

Agora, e não começou apenas após este último jogo, o FC Porto usa todo o poder de fogo junto da comunicação social para culpar dois ou três árbitros pelo seu insucesso desportivo. Mais grave, muito grave, não aponta apenas os erros desses árbitros, mas vem lançar suspeitas sobre a honestidade e seriedade dos mesmos. Esquecem-se dos erros que também eles cometeram e que lhes valeram a perda de pontos. E esquecem-se das vezes em que também eles foram beneficiados por decisões de arbitragem.

E depois? Daqui a alguns anos vamos recordar que esta Liga terá sido ganha pelo Benfica (no condicional porque ainda tudo pode acontecer) por causa do lance do Hugo Miguel e do empurrão do Florentino. Tal como nos lembramos do campeonato que o FC Porto ganhou, em que a bola entrou ou não entrou num remate do Petit para a baliza do Vítor Baía. Tal como nos podemos lembrar de outras provas que ficaram marcadas por erros de árbitros. O futebol é assim desde que existe. É, mas será cada vez menos. Hoje em dia, as decisões (erros) de arbitragem têm peso menor, quase nulo, nas decisões de jogos e títulos. É a realidade. Uma falha do árbitro e do VAR, por muito gritante que seja, não pode apagar o facto de vivermos num futebol cada vez mais limpo de erros decisivos.

Discutam o lance do Rio Ave-Benfica. Discutam-no até à exaustão. O Benfica que faça de conta que não aconteceu. O FC Porto que o use para justificar todos os seus insucessos. Mas um alerta para estes e outros clubes: erros destes tendem a acabar. Comecem, por isso, rapidamente a procurar e testar novas e inovadoras desculpas.

Para terminar, e porque para mim o futebol é só futebol, quero aqui deixar uma palavra de apoio e solidariedade a um colega com quem durante tantos anos treinei e convivi. Um colega que, por não gostar de errar, deverá estar a viver uma das mais duras semanas da carreira e da vida. Hugo, infelizmente para mim, nunca cheguei a um patamar na arbitragem em que sofresse este tipo de ataques, por isso não sei como se ultrapassa um momento destes. Espero que tu saibas. Vais voltar mais forte. Um abraço!

 

Artigo de opinião publicado no jornal Record de 15 de maio de 2019