Autor

Sandro Meira Ricci

Data: 01/03/2021

Em Brasileirão de erros graves, apenas parte da culpa é dos árbitros

Nesta quinta-feira acabou o Brasileirão mais polêmico dos últimos anos. Tivemos erros gravíssimos que jamais deveriam acontecer com VAR. A crença de que com VAR não haveria mais gols impedidos ou gols mal anulados por impedimento caiu por terra.

Entre os erros gravíssimos, cito três: o gol mal anulado de Luciano contra o Atlético-MG (único reconhecido publicamente pela Comissão de Árbitros), o soco de Jô em Diego Costa ignorado pela arbitragem e o pênalti inexistente marcado para o São Paulo contra o Botafogo na penúltima rodada (veja os vídeos abaixo).

A arbitragem perdeu credibilidade, e os árbitros têm só uma parcela de culpa nisso. Claro que no fim das contas é o árbitro que decide em campo e fica mais exposto ao julgamento público. Mas são seres humanos, inclusive os do VAR, que acertam e erram, e sem treino diário irão continuar errando.

A Comissão de Árbitros e seus departamentos são os principais responsáveis pelo momento atual delicado da arbitragem brasileira. Primeiro por não ter divulgado um projeto para melhorar a arbitragem. Estão fazendo mais do mesmo, e o mesmo não muda nada nem resolve. Segundo, por não reconhecer que precisa mudar a metodologia de trabalho e de ensino. Terceiro, porque durante o campeonato defenderam todas as decisões tomadas em campo e, com isso, o critério dos árbitros ficou confuso.

Chegamos ao fim do campeonato sem ter clareza sobre os critérios de mão na bola e bola na mão, sem saber quando uma falta na fase de ataque deve servir para anular um gol. Até mesmo as linhas de impedimento, que deveriam representar uma certeza, ficaram sob suspeita. Sem contar a troca de escala de árbitro por veto de clube.

Mas os clubes também têm sua parcela de culpa. Muitas reclamações sem sentido, só para fazer fumaça e dar satisfação aos seus torcedores, ajudaram muito a tumultuar um ambiente já instável e confuso. Procuram a CBF sempre para reclamar, atuando na consequência do problema que é o erro do árbitro, mas nunca para resolver a causa, que é a falta de profissionalização.

Jogadores, treinadores e dirigentes também são culpados. Reclamam de tudo, mesmo quando não têm razão. O comportamento dos integrantes dos bancos de reservas foi inaceitável. Isso dificulta o controle de jogo e não contribui em nada para a arbitragem.

As críticas da imprensa, que às vezes podem ser injustas, ajudam a formar opinião contrária também. Mas a crítica sempre existiu e não teria tanta força se o desempenho da Comissão de Árbitros e dos próprios árbitros fosse melhor. Seria uma crítica vazia, mas ela pesa exatamente porque não destoa da percepção geral.

Muito se falou sobre troca de cadeiras na Comissão nas últimas semanas. Isso não resolve. Precisa existir um planejamento claro de mudança e de resgate da credibilidade da arbitragem brasileira. Esse projeto passa pela profissionalização dos árbitros e de seus gestores, e pela construção de um centro de treinamento, a exemplo do que tem a Conmebol em sua sede no Paraguai, para que os árbitros possam se concentrar e treinar todos os dias.

Artigo Original: https://globoesporte.globo.com/blogs/bastidores-da-arbitragem/post/2021/02/26/em-brasileirao-de-erros-graves-apenas-parte-da-culpa-e-dos-arbitros.ghtml

Escrito em português do Brasil

Fonte: Globo.com