Autor

Jorge Faustino

Data: 13/02/2018

Eles vão continuar a errar…

Faltavam 18 segundos para atingir os 94 minutos de jogo. As Leis de Jogo dão poder discricionário ao árbitro para acrescentar o tempo que entender como justo, mas dão também linhas orientadoras sobre quais as interrupções que devem ser compensadas. Não havia motivos óbvios para prolongar o jogo para além dos 4 minutos de desconto anunciados. Assim, a conta era simples: depois do jogo recomeçar, após a assistência ao jogador lesionado, o árbitro deveria ter permitido jogar esses 18 segundos. O jogo teria durado até perto dos 96 minutos e meio. Esta decisão seria inatacável, justa e estaria “protegida” pelas Leis de Jogo.

O João Capela e a sua equipa erraram. Tenha sido por lapso na matemática (até o actual secretário geral da ONU, acusando a pressão de ter alguns microfones à frente, já se embrulhou a fazer contas) ou por opção de deixar jogar mais um “pouco”, falhou. Acrescentou, indevidamente, 1 minuto e meio ao jogo. O que poderia correr mal por se deixar jogar um minuto a mais? O pior… Um golo com influência no resultado.

O futebol é um mundo especial. Uma tribo especial. Uma tribo que não esquece um erro importante de um árbitro. Os da minha geração não precisarão fazer grande esforço de memória para se lembrar quem foi o árbitro do Campomaiorense – Porto, o do mergulho do Jardel no Benfica – Sporting ou o daquela bola na baliza do Vítor Baía num Benfica – Porto.

Somos uma tribo que procura decisões discutíveis de um árbitro, mesmo que correctas, para atacar a seriedade do homem ou a sua (in)competência para a função. Esta tribo já tinha “marcado” o João por decisões em jogos no passado. A verdade é que o João esteve muito bem na maioria dos jogos que fez na sua carreira de árbitro. É também verdade que, como todos os árbitros, já falhou muitas decisões ao longo dos mais de 20 anos que leva nesta actividade. No Tondela – Sporting desta segunda-feira o João tomou muitas decisões difíceis. Muitas delas acertadas. Mas cometeu erros que acabaram por ter influência no resultado. O João falhou! É árbitro…

É dos árbitros mais dedicados, estudiosos e empenhados do actual quadro de árbitros da Liga e, também por isso, foi convidado para integrar uma Comissão de Interpretação das Leis de Jogo criada pelo Conselho de Arbitragem. Não é por este facto que não erra. Errou.

É um ser humano fantástico. Esta é a minha opinião e tem “apenas” o valor de uma amizade. O Instituto Português do Desporto e Juventude é algo maior do que eu e, aparentemente, não deve ter opinião muito contrária à minha pois convidou o João para embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto. Não é por este facto que não erra. Errou.

O João, o Artur, o Jorge, o Carlos e todos os outros, vão continuar a errar.

Não vão errar porque um presidente de um clube fala mais alto ou faz mais barulho. Não vão errar porque alguém os corrompeu. Não vão errar porque querem beneficiar o clube com que simpatizam. Não vão errar porque uns quaisquer directores de comunicação fazem uns posts ou tweets sobre eles. Vão errar… porque são árbitros.

Fonte: Público