Autor

Duarte Gomes

Data: 30/10/2021

É na disseminação descuidada da mentira que nascem polémicas estéreis

“A ignorância ou má interpretação da lei não justifica a falta do seu cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas”.

Esta citação do Código Civil português bem pode servir de mote à reflexão que quero trazer a esta crónica.

Vamos centrar-nos no espectáculo que todos gostamos: o futebol.

Nas últimas semanas, assistimos a uma série de decisões de arbitragem que deixaram incrédulos intervenientes, adeptos e até jornalistas.

Morou neles a ideia de que os erros cometidos foram de tal forma grosseiros e evidentes, que tornou-se difícil compreendê-los e até aceitá-los como naturais, como humanos.

Naturalmente que não me refiro a lances de pura interpretação, daqueles que não têm carimbo garantido. Sabemos que esses jamais geram consensos, seja qual for a decisão final.

Refiro-me àqueles que estão clara e expressamente previstos nas leis de jogo. Aos factuais. Aos que não dependem de opiniões nem assentam em interpretações, por terem apenas uma única resposta possível: a resposta que a lei claramente prevê.

Não levem a mal a frontalidade, mas o nível de desconhecimento que a maioria dos agentes desportivos, adeptos e jornalistas/comentadores ainda evidencia em relação às regras do jogo é embaraçoso.

É inconcebível que quem joga, treina, dirige e comenta ao mais alto nível não conheça as bases em que assenta a sua atividade.

Desculpem mas ou é descuido ou é leviandade. Se não for nenhuma delas, é apenas mau profissionalismo.

O problema maior é a consequência. A falta de saber ganha contornos mais dramáticos quando depois produzem-se afirmações baseadas em pressupostos errados e infundados. É tantas vezes aí – na disseminação descuidada de uma mentira – que nascem as polémicas estéreis, os insultos e as ameaças a quem, tantas vezes, só cumpriu a lei.

Vou pegar em um exemplo extra-muros, porque a experiência e prudência aconselham a não falar de decisões da nossa praça:

– No golo decisivo marcado por Mbappé (no recente Espanha/França, da Liga das Nações), a esmagadora maioria das pessoas sentiu-se assaltada. Foi como se a validação daquele lance fosse um crime cometido por uma arbitragem encomendada.

A jogada correu mundo. Alguns jornais espanhóis fizeram capas com o título de “roubo” e “escândalo”. Até por cá, a indignação foi enorme e meteu ao barulho jogadores, treinadores e até profissionais da comunicação social. E tudo porquê? Porque não conheciam uma regra que existe há muitos, muitos anos (não, não é recente) e que explica porque é que lances como aqueles devem ser considerados legais.

Compreendo parte da indignação: a validação daquele golo foi, de facto injusta e quase imoral… mas não foi o árbitro, o seu assistente ou o VAR que erraram. A lei que está mal! A lei é que tem que ser revista para que conceitos como “legalidade e justiça” estejam mais próximos.

A ignorância pode dar felicidade a muita gente, mas já se percebeu que numa indústria tão valiosa e amplificada como esta, pode ser altamente prejudicial.

Não faltam por aí PDF’s, blogs, fóruns, artigos, vídeos, livros e pessoas que voluntariamente tentam esclarecer as regras do futebol. Fazem-no frequentemente. Sistematicamente. De todas as formas que podem, sabem e conseguem.

O desconhecimento é uma opção.

O jogo é demasiado estruturante na vida de muita gente. A forma como é percecionado cá fora exige rigor de todos. Profissionalismo. Há já demasiadas variáveis em campo que acrescentam ruído. Não é por aí que o espectáculo deixará de ter “interesse” comercial.

Mas naqueles que são os seus incidentes mais estanques, isso não pode acontecer. Ou fazemos o nosso trabalho bem feito ou usamos o nosso trabalho para nos promovermos à custas de inverdades. Cada cabeça sua sentença… mas acho que vale a pena pensarmos nisto.

A imagem e bom nome da indústria não dependem apenas dos outros… certo?

Fonte: Expresso