Autor

Jorge Faustino

Data: 27/08/2019

Discutir arbitragem

Na passada semana escrevi aqui sobre a duas interpretações antagónicas que foram feitas, por diversos agentes ligados à arbitragem, relativamente a um lance de fora de jogo. O jogador atacante tinha impactado ou não a ação de um defesa? Para quem efetivamente gosta de arbitragem, a discussão sobre aquele lance em particular era o menos importante. Interpretar o texto da lei e, principalmente, o seu espírito é uma das coisas que entusiasma quem realmente gosta de arbitragem.

Nesta terceira jornada, nova discussão academicamente muito interessante, motivada por um lance que aconteceu no Portimonense – Sporting. Com ajuda do videoárbitro foi assinalado um penálti favorável ao Sporting. Antes da execução do mesmo, o videoárbitro voltou a chamar o árbitro para lhe mostrar uma falta, de um jogador do Sporting, cometida durante a construção da jogada de ataque que resultou no penálti. Carlos Xistra, o árbitro, concordou com o VAR e anulou a indicação de pontapé de penálti.

A discussão que este lance gerou está relacionada com o facto de que entre a falta do jogador do Sporting (Thierry) e a falta que originou o penálti, houve uma “posse de bola” por um jogador do Portimonense. Coloquei aspas na expressão posse de bola pois é essa mesma expressão que está em causa neste lance e suscita dúvidas. A haver uma real posse de bola pelo Portimonense, deveria ter-se assinalado o penálti. A não existir uma posse de bola, a decisão de anular o penálti foi correta. A questão que se coloca é: os dois toques que Pedro Sá (jogador do Portimonense) deu na bola antes de fazer penálti podem considerar-se como tendo ganho a posse de bola para a sua equipa?

Vamos à letra da lei (protocolo):

“Se a equipa defensora toca ou joga a bola durante uma fase de ataque da equipoa adversária, isso não faz com que essa fase de ataque acabe automaticamente e comece uma nova. Uma fase de ataque termina quando:

  • O movimento atacante pára (exceto na área de penálti ou perto desta)
  • A equipa defensora ganha a posse da bola de forma controlada, nomeadamente quando um defesa afasta a bola sem estar sob qualquer pressão ou claramente controla a bola movimentando-se com ela ou passando-a.”

É esta última frase que carece de esclarecimento, entretanto dado pelo Conselho de Arbitragem, de forma a percebermos o espírito da lei e a forma como deve ser aplicada. Pelo que foi comunicado, e relativamente a este caso, não se pode considerar que existiu uma posse de bola pelo Portimonense porque o seu jogador, apesar de ter controlado a bola, teve sempre vários jogadores à sua volta a pressioná-lo.

A decisão da equipa de arbitragem foi correta com base naquilo que o Conselho de Arbitragem veio esclarecer à posteriori. Estes esclarecimentos são importantes para o futebol. Saibam os clubes aceitá-los e não os usar como argumentos para em situações futuras crucificar outras decisões.

Artigo de opinião publicado no jornal Record de 27 de agosto de 2019

Fonte: Record