Autor

Duarte Gomes

Data: 10/02/2021

As redes sociais e o futebol: discordar não chega. Não gostar é insuficiente. É preciso magoar. É preciso derrubar, esmagar, matar

Já se disse tanto sobre vantagens e desvantagens das redes sociais que eu, mero utilizador, pouco posso acrescentar, a não ser a partilha da minha experiência enquanto utilizador diário dessas ferramentas.

É justo começar por dizer que reconheço, em todas elas, uma utilidade tremenda, quer em termos pessoais, quer sobretudo em termos profissionais.

Por exemplo, o Kickoff – projeto que nasceu em agosto de 2017 -, só existe porque assenta em plataformas virtuais. É por aí que comunica, foi aí que cresceu e será por aí que viverá o tempo que tiver que viver.

A possibilidade de chegar a muita gente num curtíssimo espaço de tempo é uma mais-valia enorme para quem, como eu, se propõe a aprender, a passar mensagens ou, simplesmente, a conhecer outras realidades, outras gentes, outras paragens.

Facebook, Twitter, Instagram, Linkedln e YouTube são, de facto, canais muito importantes se utilizados devidamente, com planeamento, prudência e bom senso.

Todos conhecemos bem o número interminável de histórias (reais e comprovadas) que ilustram a sua relevância: as pessoas que se encontraram depois de dadas como desaparecidas, as vidas em risco que entretanto se salvaram, os grandes negócios que se fizeram. Há relatos continuados de animais que são resgatados e de tantos criminosos que são apanhados. E há exemplos incríveis de humanidade, que vão de pequenos gestos solidários a enormes manifestações de afeto, amor e amizade.

Mas há também o outro lado. O lado perverso. O lado que, sendo transparente, escurece. Aquele que revela a indiferença, negligência ou malícia que algumas pessoas conseguem inflingir noutras em termos pessoais, familiares e profissionais.

Infelizmente não faltam exemplos de gente de bem, honesta e íntegra, que se vê arrastada para a lama por conta de um rumor infundado ou de um complô bem elaborado.

É o homem no seu pior.

Nesse aspeto, convenhamos, as mais atingidas são as chamadas “figuras públicas”. Políticos, ilustres da TV, desportistas ou artistas, todos apanham forte e feio por dá cá esta palha. Às vezes por tudo, tantas vezes por nada.

É certo que pessoas assim devem ter a responsabilidade de não se expor demasiado.
É certo que deviam ter maior poder de encaixe por força da sua notoriedade. E é certo que a procura ansiosa por sucesso, seguidores ou likes e partilhas faz com que arrisquem mais do que deviam… mas que atraem demasiado ódio, lá isso atraem.

O fenómeno é cíclico. Depende da moda ou da maré. Mas quando é para bater são saco de pancada de gente despedaçada. De gente frustrada, enciumada ou apenas desanranjada.

É inacreditável a dimensão que certos comentários podem atingir. É como se as pessoas quisessem testar os limites da sua própria malvadez, inflingindo-a de forma gratuita a tudo o que mexe.

Discordar não chega. Não gostar é insuficiente. É preciso magoar. É preciso derrubar, esmagar, matar.

Uns mais estratregicamente, outros por mera vocação, os haters são de facto a expressão virtual do pior que há no ser humano.

Têm plena noção que um mero comentário pode fazer propagar raiva coletiva. Pode fazer disparar os níveis de agressividade para patamares perigosos, por isso vão com tudo. Duas, dez, vinte vezes. Não se importam, pelo contrário. Retiram prazer disso.

É patológico ou apenas muito triste.

Não parece haver legislação ou regulamentação que trave com eficácia, celeridade e justiça este bullying virtual. Tudo é insuficiente e só parece abrandar quando a insanidade torna-se real. Quando culmina em vandalismo doentio ou agressões a sério.

Enquanto esse enquadramento não ganhar força e peso, as gentes das redes continuarão a atacar, a magoar e a destruir tudo o que puderem.

Não há mundos perfeitos e não há bela sem senão.

O mal, em si, não está no teclado mas no quilate moral de quem está escondido por detrás dele.

Como alguém disse um dia: “Meia dúzia de idiotas convencida que é prémio Nobel da literatura”.

Fonte: Expresso