Artur Soares Dias, que é o árbitro português mais categorizado da atualidade, tomou uma decisão no seu último jogo que teve, para o exterior, contornos dramáticos:
– O portuense assinalou uma infração em zona atacante, interpretando como faltoso um contacto de um jogador sobre um adversário.
Seria apenas mais um lance de interpretação, não fosse a consequência imediata e o impacto potencial que teve na partida: a análise acabou por revelar-se incorreta e, por força disso, um golo que devia ter acontecido não aconteceu. A equipa que teria marcado não marcou, perdeu e tudo o resto teve a visibilidade que teve.
Para que fique claro – não venham já os meus amigos acusar-me daquela trivialidade cansativa chamada corporativismo -, Soares Dias equivocou-se e por duas vezes: na avaliação técnica que fez do lance (de facto, não houve irregularidade) e ao interromper a partida de imediato, inibindo a mais que certa intervenção do vídeoárbitro.
Soares Dias, apesar de muito qualificado, não é infalível, tal como não o era Pedro Proença, Vítor Pereira ou António Garrido. Tal como nunca o foi Pierluigi Collina.
O internacional português cometeu um erro que se revelou importante e, com isso, legitimou as críticas que se ouviram à posteriori.
São danos colaterais comuns a um jogo que culturalmente sempre se habitou a censurar mais as decisões dos juízes do que as falhas decisivas de alguns dos seus mais gloriosos protagonistas.
O assunto vendeu jornais e garantiu audiências importantes à generalidade da imprensa mas depressa cairá no esquecimento, porque por cá a nossa visão das coisas é demasiado imediatista: o balão enche rápido, mas esvazia ainda mais depressa.
É pena que, erros à parte, não se consiga ver para além da espuma e pensar seriamente sobre o que deve mudar para que o nosso futebol se torne cada vez mais justo, transparente e credível.
Podíamos começar por pensar, por exemplo, em algo tão simples e real, que é o facto de termos VAR na 1.ª Liga portuguesa mas não na 2.ª, quando ambas são competições profissionais organizadas pela mesma entidade.
Todos sabemos que a decisão está relacionada com custos financeiros, constrangimentos operacionais e até escassez de recursos humanos (falta de árbitros qualificados), mas só essa pequena diferença significa duas coisas:
1. Que nas duas competições há formas bem distintas de apurar a verdade desportiva, o que é profundamente injusto e desigual;
2. E que as nossas equipas de arbitragem, que dirigem jogos de ambas, são obrigadas a atuar de modo distinto numa e noutra:
– Na 1ª Divisão os árbitros devem esperar o desenrolar da jogada antes de interromper um lance decisivo; na 2ª devem interrompê-lo de imediato. O mesmo aplica-se aos árbitros assistentes, que numa têm que aguardar até ao fim para levantar a bandeirola, noutra devem intervir mal ocorre o fora de jogo.
Essa mudança de chip pode até parecer menor, mas acreditem quando vos digo que já esteve na base de erros importantes que aconteceram à frente dos nossos olhos.
Mas há mais.
A questão da “divulgação dos áudios” faz todo o sentido e já acontece na Austrália e nalguns campeonatos sul-americanos. A opção não evita erros nem corrige decisões, mas vende credibilidade pela sua transparência e isso é fundamental.
As pessoas tendem a acreditar em processos em que são incluídas. Mesmo que não concordem e até os critiquem, respeitam-nos porque percebem que nada lhes é sonegado. Que nada foi planeado maquiavelicamente para as prejudicar.
É tão simples que o que custa mesmo é perceber porque não se avança nesse sentido.
E quem fala em divulgação de áudios, fala por exemplo em comunicação para o exterior, que neste momento é nula. Uma comunicação que mostre o que pode e deve ser mostrado e sem nada a temer, porque de facto não há nada a esconder.
Quando as instituições, os clubes, os adeptos e até a imprensa estiverem mais dentro do que acontece, quando puderem ser integrados, interagir e receber esclarecimentos, as coisas vão melhorar. A polémica não morrerá, é certo mas será outra. Muito diferente. Menos corrosiva, porque não haverá tanta suspeição. As pessoas só suspeitam daquilo que não conhecem.
É preciso fazer mais do que dar murros pontuais na mesa quando as coisas correm mal. É preciso refletir sobre ideias, escrever propostas e levá-las a quem de direito, no local próprio. Depois é preciso lutar por elas.
Tal como acontece com a política, o futebol de hoje tem muito a ver com perceção.