“Árbitros também têm responsabilidade, não dão murro na mesa”, diz Pedro Henriques

“Estamos a cinco jornadas do fim, querem melhor altura? Quando há um Benfica-FC Porto para a semana?”

Os árbitros Hugo Miguel e Luís Godinho têm sido acompanhados, nas últimas semanas, pelo corpo de segurança pessoal da Polícia de Segurança Pública (PSP). A decisão partiu da própria força policial, atenta à contestação que tem envolvido a arbitragem, com estes dois juízes em particular, de acordo com o jornal A Bola.

Pedro Henriques, antigo árbitro internacional e agora comentador, confessou ter ficado surpreendido com a necessidade de haver escolta policial para os árbitros. Após uma reflexão, concluiu que o próprio setor tem “uma quota de responsabilidade” na atual situação, pois têm medo de “dar um murro na mesa” e alertar para os problemas.

Com 20 anos de arbitragem, Pedro Henriques revelou que, na altura em que pisava os relvados, os árbitros sabiam defender-se. E contou que havia “reuniões em Leiria”, por ser “no centro do País”, sempre que os ânimos começavam a ‘aquecer’. “Nós, árbitros, com toda a independência, reuníamo-nos e tomávamos medidas”, adiantou, em declarações na A Bola TV.

Quando as “ameaças” se agravavam ou apareciam “pinturas nos carros ou nas portas das casas” dos árbitros, em menos de 48 horas os árbitros reuniam-se “para mostrar força”, através de “coisas simples, como atrasar os jogos cinco minutos, só para o pessoal perceber que estávamos descontentes com alguma situação”.

“Havia o veto, que era o que eu menos gostava. Mas nós tomávamos medidas para dar um murro na mesa, para os agentes do desporto perceberem que sem árbitro é complicado. Ainda houve uns jogos em que foram buscar árbitros à bancada e as coisas não iam correndo bem”, acrescentou.

Olhando para a arbitragem da atualidade, Pedro Henriques lamenta a falta de “liderança”, com os árbitros “sozinhos” perante os comportamentos “politicamente corretos” do Conselho de Arbitragem e da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF). “Neste momento, os árbitros têm uma quota de responsabilidade. Já que as chefias estão com paninhos quentes, os árbitos que se reúnam e tomem medidas”, exortou.

“Estamos a cinco jornadas do fim, querem melhor altura para os árbitros darem um murro na mesa? Quando os campeonatos estão super apertadíssimos e é preciso árbitros se não isto não acaba? Quando há um Benfica-FC Porto para a semana? Nós éramos ‘prós’ nisto”, insistiu o comentador.

Pedro Henriques serviu-se do próprio exemplo: sentindo-se ofendido na honra após um jogo em dezembro de 2008, falou publicamente, à revelia do Conselho de Arbitragem. “Como ninguém defendia a minha honra, nem o Conselho de Arbitragem, nem a APAF, vim defender-me publicamente contra um clube, sabendo que não o podia fazer. Levei 39 dias de castigo, mas marquei posição. Nos dois anos que faltavam para terminar a carreira foi tudo uma missa, nunca mais tive problemas. Porque as pessoas perceberam que eu tive que marcar posição”, contou.

Essa tomada de posição de Pedro Henriques não foi caso único. Nessa altura, o setor era mais solidário. Agora, falta a “liderança” que permita dar esse “murro da mesa” que tanta falta tem feito, acrescentou o ex-árbitro. “No meu tempo, tínhamos um conjunto de líderes, tínhamos um Pedro Proença, um Olegário Benquerença, um Paulo Paraty, uma série de pessoas que tinham ascendência, competência e perfil de liderança. Rapidamente reuníamo-nos e tomávamos medidas”, insistiu.

“Neste momento, a preocupação dos árbitros é com o próximo jogo, para que não sejam os próximos [alvos da contestação]. Estão muito manietados por esta situação de serem profissionais ou semiprofissionais, porque se são profissionais não podem tomar medidas. Isto não pode acontecer, os árbitros estão sozinhos porque estão divididos e não tomam medidas”, finalizou Pedro Henriques.

Fonte: Bancada