Autor

Duarte Gomes

Data: 15/10/2020

Acredito que muitos (árbitros) “sofram” em silêncio

A saúde mental é algo que deve ser levado muito a sério e só quem não vive com os pés assentes na terra é que pode pensar o contrário.

Já lá vai o tempo em que uma pessoa com problemas desta natureza era estigmatizada, excluída ou rotulada de louca. O mundo entretanto mudou.

Hoje tudo acontece a uma velocidade estonteante, superior à nossa capacidade de raciocinar e executar.

O homem criou a máquina, a tecnologia e a inteligência artificial, mas começa agora a perceber que está bem atrás de qualquer uma delas.

ERRADO É DESVALORIZAR A EXISTÊNCIA DE DOENÇAS MENTAIS

Essa constatação, a de que afinal somos limitados, nada tem de errado. Pelo contrário: torna a nossa vida mais desafiante porque a imperfeição obriga à superação constante, à procura de respostas, à fixação de novas metas.

Errado é desvalorizar a existência de doenças mentais e achar que não passam de meras chamadas de atenção. Errado é achar que este tipo de coisas só acontecem a pessoas demasiado frágeis, sensíveis ou vulneráveis.

De acordo com dados recentes da OMS, estima-se que quase um bilião de pessoas tenha transtornos mentais. Estamos a falar de 1 em cada 7/8 pessoas que habita a Terra.

A “boa notícia” é que nem todas padecem de situações irreversíveis. Diz quem sabe que os mais frequentes – stress, ansiedade, depressão e dependência de substâncias – têm tratamento fiável, assim exista vontade, meios e sensibilidade para o iniciar. Assim exista apoio e incentivo de um amigo atento ou de um familiar próximo.

NINGUÉM MERECE PASSAR POR ISSO SOZINHO

Vem este tema a propósito da dimensão crescente que este fenómeno tem na sociedade moderna. Uma dimensão particularmente relevante nas pessoas cujas atividades profissionais exigem alguma exposição pública.

Essas sentem uma pressão adicional: a de terem que fazer tudo certo para não serem torturadas nos media ou chacinadas nas redes sociais. Sentem que têm que ser perfeitas, para não terem que se vergar a humilhações constantes ou a condenações na praça pública.

São tempos difíceis, estes, para quem tem os holofotes virados para si.

Há quem aguente e se torne mais forte e resiliente e há quem simplesmente não consiga ultrapassar tamanha exigência emocional. Certo, certo é que ninguém merece passar por isso sozinho.

VÁRIOS OS ATLETAS DERAM NOTA PÚBLICA DE FASES DE VIDA ASSOMBRADAS POR FANTASMAS E PEQUENOS MONSTROS

A esse propósito é justo que se reconheça um factor relevante: é cada vez mais comum assistirmos a histórias de vida contadas, na primeira pessoa, por figuras conhecidas.

A importância desses relatos é transcendente para quem está do lado de fora. Cada uma dessas confissões corajosas é uma bóia de salvação para milhares de pessoas que se julgavam sozinhas. Cada medo partilhado é o paracetamol perfeito para um mão cheia de gente que ansiava por algo que anulasse a sua dor e angústia.

No desporto, foram já vários os atletas que deram nota pública de fases de vida assombradas por fantasmas e pequenos monstros. Fases de vida que afetaram o seu bem-estar pessoal e familiar, a sua lucidez e o seu desempenho profissional.

ACREDITO QUE MUITOS (ÁRBITROS ) “SOFRAM” EM SILÊNCIO

Curiosamente nunca se ouviu o mesmo da boca de um árbitro, mas acredito que muitos “sofram” em silêncio. A pressão a que estão sujeitos é inenarrável.

Os árbitros passam toda uma vida a lidar com stress elevado (dentro e fora de campo), críticas corrosivas e acusações graves. A sua competência é medida a cada penalty e a idoneidade a cada decisão. Depende do jogo, do clube ou do contexto desportivo. Às vezes nem depende de nada.

Não é fácil caminhar uma vida inteira a tentar andar pelos intervalos da chuva, sendo escrutinado a toda a hora com base em pressupostos demasiado castradores e injustos.

A somar a tudo isso há o dano social, aquele que afeta o quotidiano pessoal e a estabilidade familiar. E depois, claro, há ainda a insinuação constante, a ofensa gratuita, a invasão de privacidade e, não raras vezes, a agressão física.

Não é fácil. As pessoas acham piada porque o árbitro é o malandro mal-intencionado que não é filho delas, mas esquecem-se que é filho de alguém.

É importante que comecemos a olhar para esta realidade de forma cada vez mais arejada, consciente e ativa. É importante sinalizar, apoiar e direcionar para o apoio adequado quem evidenciar sinais de alerta. E é importante abandonarmos, de vez, esta ideia de que somos todos uma espécie de Super-Homens, imunes a quebras emocionais ou psicológicas.

Não é verdade. Não é verdade de todo.

Procurar ajuda não é sinal de fraqueza, é sinal de inteligência. Fraqueza é não reconhecermos que precisamos dela.

Estejam atentos e não facilitem.

Fonte: SIC Notícias