Autor

Duarte Gomes

Data: 22/10/2021

A violência que vimos em campo no fim de semana é espelho da sociedade

O confinamento pode ter evitado males maiores em relação à pandemia e às suas consequências, mas não parece ter servido de analgésico para algumas das suas reações mais intempestivas.

Quando se esperava que a reclusão forçada contribuísse para uma espécie de introspeção coletiva – em que todos nós assumiríamos, para nós próprios, que alguns dos erros que cometemos não se deviam repetir – a verdade é que, em matéria de comportamento em eventos desportivos (e pelo que se tem visto, não só aí) algumas condutas têm-se revelado perversas e, nalguns casos, criminosas.

Poderão dizer-me que as pessoas tinham saudades de extravasar emoções, de participar em espectáculos, de libertar a energia acumulada meses a fio. Eu, que também passei pelo mesmo e senti as mesmas necessidades, digo que não.

O que vimos acontecer nos último fim de semana é apenas o espelho evidente de uma sociedade descontente, descrente e por vezes mal-formada, que tem visão curta e é umbigo-orientada. Uma sociedade culturalmente pobre, que confunde resultado desportivo com batalha campal, indignação com direito à agressão.

Que fique claro que a expressão “sociedade” é aqui empregue na sua franja mais reduzida, orientada apenas para aqueles que acham que insultos, ameaças, cuspidelas na cara, batota e má fé são formas válidas de vencer. De vencer na vida e de vencer em campo.

Eles estão errados e todos os outros – os bons da fita, que nada têm a ver com eles – têm que ser firmes e categóricos em provar-lhes o contrário.

Vem isto a propósito das cenas de pancadaria que aconteceram no Olímpico do Montijo-Setúbal B e no Alpendorada-Ermesinde.

O futebol português não pode passar esta imagem lá para fora. Não pode de todo.

É verdade que os casos pontuais, como estes e tantos outros que nem são promovidos a notícia, são difíceis de prever e controlar. Podem acontecer a qualquer altura e quando acontecem, são quase sempre resultado de rastilhos insignificantes, como uma decisão discutível do árbitro ou uma boca de um adepto a outro.

Mas estruturalmente todos podemos fazer mais para criar um padrão superior. Para elevarmos a fasquia no sentido de termos cada vez mais boas práticas e cada vez menos arruaça. Na minha opinião, isso pode acontecer através do casamento perfeito de duas acões simultâneas:

1. A primeira – a ideal, porque mais nobre e antes do facto acontecer – é a prevenção: continuam a faltar mais ações de sensibilização junto de pais de atletas, adeptos e agentes desportivos. Continua a faltar mais envolvimento das estruturas nacionais de futebol, das associações regionais, das autarquias, escolas e estado. Continua a faltar mais planeamento no combate antecipado à intolerância e à violência. Há muitas formas simpáticas (e até apelativas) de levar o melhor dos valores ao mais irascível dos adeptos. Assim exista um plano de ação global e recursos para executá-lo de forma coerente e geral. De forma sistemática. É possível fazer mais sim e, em muitas coisas, basta pouco para lá chegar.

Evangelizar é tarefa demorada e hercúlea, mas não acontecerá nunca se não for feita de forma repetida, criativa e resiliente. É chato mas tem que ser.

2. A segunda é a menos desejável, porque à posteriori: a punição rígida de tudo o que tem que ser rigidamente punido.

Como em tudo na vida, também no desporto punir com justiça e celeridade é passar uma mensagem forte sobre tudo aquilo que não podemos tolerar. Sobre o que nunca deve acontecer.

Essa mensagem chega primeiro a quem asneirou, depois a quem tem potencial ou propensão para infringir.

A sanção desportiva e civil/criminal (sempre que se justifique) é uma poderosa ferramenta de prevenção. Não muda o que aconteceu, mas evita o que pode vir a acontecer.

Acho, muito sinceramente, que em Portugal estas duas armas ainda não estão a ser exponenciadas ao máximo. Acho que há margem para que uma e outra possam ser melhor afinadas e calibradas. Melhor utilizadas.

Quando isso acontecer, os tiros para o ar que se viu no Montijo e os socos e agressões que assistimos a norte diminuem drasticamente.

Até que isso aconteça, vai continuar-se a falar das coisas mais fofinhas do jogo, dos recordes e prémios (obviamente sempre importantes elogios), como se isso nos fizesse esquecer por momentos que o desporto português, com o futebol à cabeça, têm de facto um lado doente, que deve ser tratado com urgência.

Na casa que tem dois gémeos diferentes, não é a valorizar sistematicamente os feitos do “bom” que se cura os pecados do “mau”.

Fonte: Expresso