Autor

Duarte Gomes

Data: 20/03/2022

A tolerância ao erro e a constatação que ele é transversal é algo dificilmente aceite quando o tema é bola

Como alguns dos caros leitores saberão, sou autor de um projeto – o Kickoff -, onde romanticamente tento explicar, com a racionalidade possível, esta coisa sensível que é a nossa arbitragem.

Digo romanticamente porque “arbitragem” e “racionalidade” não cabem na mesma frase.

Deixem-me contextualizar: a ideia de lançar o Kickoff arrancou em 2017, com o lançamento de um site e livro. A coisa foi evoluindo, tranquilamente, até ao presente.

Hoje, além de outra publicação escrita, o projeto está presente no Instagram, Twitter, LinkedIn, Facebook e YouTube. Conta, ao todo, com mais de 220 mil seguidores.

Posso dizer-vos, com orgulho (permitam-me a vaidade), que sou o único responsável por tudo o que lhe diz respeito: criação de conteúdos, resposta a comentários e mensagens, lançamento de desafios, quizzes, diretos com convidados, análise técnica de lances, comentários sobre atualidade, esclarecimentos das regras e do protocolo VAR, etc. Fazê-lo tem sido aliciante e didático, mas como perceberão, exige disponibilidade, dedicação e conhecimento técnico.

O problema, obviamente, não é esse. Quem corre por gosto não cansa e há sempre tempo para fazermos o que mais gostamos.

O problema é continuar a constatar que aquilo que move a maioria das pessoas não é a vontade de perceberem as leis ou as recomendações que os árbitros têm. Elas não querem entender o que levou ao erro ou o motivo técnico que levou a decisão em determinada direção. O que as move é, quase sempre, o desejo de terem uma opinião que valide a sua. Um carimbo que suporte o seu.

Ora como a maioria dos seguidores Kickoff são adeptos dos chamados “grandes”, não é difícil deduzir que as reações a algumas das análises técnicas que vou publicando podem ser bastante… cruas.

Claro que essa dimensão mais bélica só acontece em momentos de maior efervescência, quando o incêndio já foi ateado e a casa está a arder.

Quotidianamente nem sempre é assim. Por exemplo, de cada vez que publico um post didático ou faço uma partilha mais construtiva, a interação dos seguidores é pouco significativa: três ou quatro “gostos” aqui, um ou dois “comentários” ali e está feito. As pessoas não consomem conteúdos onde não exista celeuma. É feio mas é como é e não apenas no futebol.

Se o tema for mais técnico – com questões sobre regras do jogo ou vídeos com lances estrangeiros -, a coisa até arrebita, embora aqui e ali pincelada com comentários menos simpáticos. Há sempre que tenha analogias para justificar a rasteirice.

Mas quando a abordagem é referente ao penálti ou cartão vermelho do jogo que está na ordem do dia, meus amigos… a casa vem abaixo.

Começa o festival de comentários ininterruptos, que por vezes tem alcance na ordem das centenas de milhares de pessoas. O povo perde a noção, desliga a tomada da lucidez e diz de sua justiça sem filtros: ironizam, barafustam, insultam, ameaçam e acusam tudo e todos. A “pancada” sobra muito para mim, pois claro, mas também para qualquer um que que se atreva a discordar.

Depois ainda há as mensagens privadas, onde alguns conseguem escrever coisas que eu (e qualquer pessoa funcional) seria incapaz de dirigir ao meu pior inimigo.

Claro que, no meio de tanto azedume e cegueira, há gente lúcida e educada, que consegue manifestar-se com elevação e serenidade. São esses que fazem tudo isto valer a pena.

Quem corre por gosto não cansa… eu sei. O que cansa, ou melhor, o que entristece, é perceber que poucos são aqueles que querem ver as coisas como elas realmente são: há quem seja mais competente, há quem seja mais experiente, há quem tenha mais apetência inata e sensibilidade para o exercício da função… e depois há os outros, que são bem-intencionados, mas mais limitados, menos capazes. Isso vale para os árbitros, jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas e até adeptos.

Mudar mentalidades nunca foi fácil e isso é válido para qualquer realidade social… mas há coisas que se interiorizam mais rapidamente do que outras. No desporto é nula a possibilidade de uma evolução rápida.

Somos almas emotivas que julgam sem conhecer e condenam sem entender. É assim no futebol, na política, em tudo. Se dúvidas houvesse, pensem na pandemia e na invasão da Rússia à Ucrânia.

O respeito, a tolerância ao erro e a constatação de que ele é transversal a qualquer um de nós é algo que dificilmente será aceite enquanto o tema for bola. Há demasiado fumo no ar, que a maioria inala sem perceber bem o que ele esconde.

Sabendo que ninguém muda o mundo sozinho (acreditem, o meu romantismo não viaja até ao delírio), não deixa de ser fundamental que se percorra esse caminho, o da tentativa, da teimosia, da persistência em mudar chips.

Quantos mais melhor. O ideal até é que essa missão seja desempenhada por pessoas com outra representatividade e responsabilidade, porque aí a mensagem passará melhor. Será mais credível e eficaz. Pelas mãos de um ex-árbitro cujos erros moram no imaginário seletivo dos adeptos… a coisa não vai lá, de certeza.

Se todos fizerem a sua quota-parte, muitos farão a diferença. Ou isso ou não andamos cá a fazer nada e o melhor é cada um tratar da sua vidinha e seja o que Deus quiser.

Fonte: Expresso