Autor

Duarte Gomes

Data: 16/07/2021

A mentira despiu a verdade para ser uma arma poderosa rumo ao sujo infinito

Em 1896, Jean-Léon Gérôme (pintor e escultor francês) fez uma pintura a que chamou de “A Verdade saindo do Poço”. O quadro, que agora repousa num museu da cidade francesa de Moulins, retrata uma conhecida parábola do Séc. XIX.

Segundo reza a lenda, um dia a Verdade e a Mentira encontraram-se. Encontraram-se e começaram a conversar.

Disse a Mentira à Verdade:
– “Está um dia tão bonito”.

E era verdade. De facto, estava um dia muito bonito.

Passaram algum tempo juntas até que, ao chegarem junto a um poço, a Mentira disparou:
– “A água está tão agradável, porque não tomamos um banho juntas?”

A Verdade, embora reticente e desconfiada, tocou na água e, realmente, a água estava agradável. Muito agradável.

Despiram-se e foram as duas a banhos.

De repente a Mentira saiu da água, vestiu as roupas da Verdade e fugiu. Fugiu o mais que pode.

A Verdade, incrédula, saltou do poço e correu todos os lugares que conhecia para encontrar a Mentira e recuperar as suas vestes.

O Mundo, confrontado com a nudez da Verdade, revirou os olhos num misto de desprezo e raiva. Escorraçou-a e insultou-a com desdém, do alto da sua razão. Razão que não tinha.

A Verdade, derrotada, voltou ao poço e desapareceu para sempre, escondendo a sua vergonha de tudo e todos.

Desde então a Mentira percorreu o Mundo usando as roupas da Verdade e satisfazendo os caprichos de pessoas e sociedades. Satisfazendo os seus próprios caprichos sob vestes que nunca foram suas.

O Mundo, esse, continua a admirá-la e aplaudi-la, enquanto se recusa a encarar… a Verdade nua.

Não é difícil de fazer a transposição desta parábola para os dias de hoje.

Uma mentira convincente é quase sempre mais forte do que uma verdade genuína.

Se entre nós, no nosso dia a dia ou relacionamentos, pequenas mentiras por conveniência podem até ser aceitáveis – quem nunca disse “estás mais magra”, achando exatamente o contrário? -, já nas esferas de poder onde desfilam gigantescos interesses e ambições, a mentira estratégica é uma arma poderosa rumo ao infinito sujo.

Quando não se diz a verdade podemos até não estar a ferir a lei, mas estamos a esmagar a maior das regras pela qual nos devemos reger: a da ética. A da dignidade, do carácter e da grandeza moral.

Quem mente maliciosamente, em contextos estruturantes ou em círculos de poder (e falo de mentiras daquelas que acarretam benefícios gigantes para uns em detrimento de prejuízos avassaladores para outros) devia ser mais penalizado do que quem “apenas” infringe a lei.

É que a lei é um normativo exterior, criado pelo homem para evitar a desordem e o caos. Já a ética é um valor pessoal, intrínseco, ligado ao que de mais nobre temos na vida: a nossa essência. E essa não se vende nem se compra por preço algum.Hoje em dia paira no ar a perceção de que a mentira abunda. Está aqui e acolá, ali e além, um pouco por todo o lado. Ora mais sonsa e camuflada, ora mais exposta e desavergonhada.

É uma sensação exterior desagradável essa, que não tem cor nem rosto, mas que se sente e cheira. Intui-se.

As redes sociais, que têm tantas coisas boas, também vieram contribuir para a ascensão de sapiens doutorados em bluff e esquemas ardilosos. Quando os protegem, defendem ou desculpam, dá-lhes uma força invisível que capitalizam.

Essa realidade acontece quase sempre nas zonas altas, de maior impacto. Nas áreas mais fortes e estruturantes da sociedade. Nos centros de decisão ou nos espaços onde poder e dinheiro andam de mãos dadas. É aí que a mentira transvestida de verdade prolifera a olhos vistos. De forma quase despudorada.

Algo tem que mudar rapidamente na forma com que tantos se posicionam para que possamos voltar a confiar em quem nos rodeia.

O segredo é simples: esvaziar o poço e reintegrar a Verdade na sociedade. Custe o que custar. Enquanto a água encher o poço, a Mentira continuará a passear-se e a pobre Verdade… a afogar-se.

Fonte: Expresso