Autor

Duarte Gomes

Data: 13/02/2021

E o bom senso?

Não está escrito em nenhuma das leis de jogo mas, no futebol, ter a capacidade de gerir momentos difíceis e situações adversas é algo que qualquer árbitro de categoria deve saber fazer.

Na prática, o que é então esta coisa do “bom senso”? Bem… têm tempo?

Dizem os entendidos que bom senso é um conceito que alia sabedoria a razoabilidade. Que é a capacidade que uma pessoa tem (ou devia ter) de aliar as normas à realidade, de forma a fazer as melhores escolhas.

O bom senso, no fundo, é sensatez pura.

Na arbitragem, ter bom senso é meio caminho andado para ser bem aceite. Para ser respeitado. Para ter credibilidade. É meio caminho andado para ser admirado, ainda que no erro, ainda que na falha, ainda que num jogo péssimo ou num dia muito mau.

Um árbitro que saiba todas as regras, que conheça todas as instruções e tenha decorado todas as recomendações, é apenas um aluno em final de curso. Um produto potencial. Um teórico que precisa depois do mais importante:

– Prática. Jogos. Minutos. Quilómetros. Experiência. Vivências. Rotinas.

Na arbitragem, chamamos àqueles que nunca dão esse salto de “apitadores”. São os que levam o livro debaixo do braço e, em campo, desfilam rigor teórico, esquecendo que o mais importante ali é conduzir pessoas, respeitando as regras.

Para um árbitro, ter bom senso é saber que se ganha o jogo bem antes dele começar. Na forma como se apresentam e como conversam. Na forma como reagem a adversidades e se posicionam. Na forma como explicam e como ultrapassam obstáculos: sem conflito. Sem arrogância. Sem prepotência. Com caráter. Com humildade. Com espírito de cooperação.

Para um árbitro, ter bom senso é ser consistente. É tratar todos por igual em qualquer jogo, em qualquer estádio, em cada época. É ser preventivo a toda a hora. É falar calmamente com quem está mais exaltado. É perceber que todos estão sujeitos a grande pressão e a enorme desgaste físico, que fere gradualmente a lucidez.

Ter bom senso é respeitar primeiro para ser respeitado depois. É saber “colocar gelo” quando as coisas aquecem e saber “dar calor” quando estão demasiado mornas. É virar as costas quando o momento pede indiferença e enfrentar de frente quando exige determinação.

É apitar leve no que é irrelevante é mais forte no que é grave.

Ter bom senso é ser equilibrado e pacificador. É saber do jogo e sentir o pulso a jogadores, técnicos e demais agentes. É conhecer o ambiente. É evitar conflitos, não comprando problemas.

É ter coragem quando a coragem tem que aparecer. E é ter a cabeça levantada em qualquer decisão que tome.

Estas coisas não se ensinam nos cursos. Aprende-se lá dentro, aos poucos. Devagar, devagarinho. Mas aprende-se desde o início, não quando se chega ao escalão mais alto.

Na bola como em tudo na vida, o bom senso é a solução para quase tudo… e para quase todos.

Fonte: SIC Notícias