A ausência de árbitros portugueses no Campeonato do Mundo do Qatar quebra um ciclo que tem imperado nos últimos anos. Isto porque a arbitragem nacional esteve representada por Olegário Benquerença no Mundial’2010, por Pedro Proença no Euro’2012 e no Mundial’2014, teve ainda dois vídeo-árbitros (Artur Soares Dias e Tiago Martins) no Mundial da Rússia, em 2018, sendo que no último Europeu teve Soares Dias a arbitrar e João Pinheiro como VAR. Ora, Artur Soares Dias era novamente o candidato luso para o grande certame, mas a FIFA acabou por não inclui-lo na lista final.
Neste sentido, há razões para ficarmos preocupados com o futuro da arbitragem portuguesa? Vítor Pereira, ex-árbitro e antigo líder do Conselho de Arbitragem da FPF, reconhece que é preciso analisar a questão de uma forma mais pormenorizada, mas não se demonstra alarmado com a situação.
“Leva a uma análise profunda. De facto, é mau que um país como Portugal, que está no top-10 do mundo, não tenha um árbitro num Mundial. Nesse ponto de vista é mau. Olhando de outra maneira, são poucos os países europeus que têm árbitros no Mundial. É uma seleção muito reduzida. Cada país tem um ou dois candidatos. No nosso caso tínhamos um, que era o Artur Soares Dias, que acabou por não ser escolhido pela FIFA. Temos de continuar a trabalhar para qualificar a nossa arbitragem, para ter o maior número de árbitros no grupo de elite, que é de onde saem os candidatos para as grandes competições”, afirmou Vítor Pereira, em declarações ao nosso jornal.
“Não há futebol de topo sem uma arbitragem de topo, nem o contrário. É por isso que, normalmente, em termos europeus, os big-5 têm mais árbitros internacionais. Estão sempre representados nas grandes competições. Quando fazemos análises desta natureza, temos de ter noção do contexto. Portugal tem cerca de 3 mil árbitros de futebol. Espanha, Itália e França têm perto de 30 mil. A Alemanha, por exemplo, ronda os 60 mil. É uma grande diferença. O nosso trabalho de formação, recrutamento, retenção de árbitros tem que ser mais eficaz do que nesses países. Depois, as fases de desenvolvimento e exponenciação de potencial tem que ser também mais eficaz para conseguirmos ombrear com eles”, acrescentou.
Por outro lado, também há quem considere que as críticas aos árbitros portugueses e o excessivo ‘folclore’ que se cria todas as semanas acaba por ter influência, mas Vítor Pereira é de outra opinião. Até porque, como o próprio refere, a classe lida com situações mais adversas noutros países.
“Controvérsias relativamente à arbitragem existem em todos os países. Por vezes, as controvérsias e as pressões são maiores noutros países. Os árbitros quando chegam à profissionalização e à elite têm que ter competências mentais que lhes permita alhear-se dessa pressão. Não considero que as críticas contribuam para que não tenhamos nenhum árbitro no Mundial. Nos países que conheço, inclusivamente nos que têm um futebol de maior dimensão, com exceção de Inglaterra, esse facto não tem qualquer influencia nessa seleção para o Campeonato do Mundo”, referiu Vítor Pereira, dono de uma vasta experiência internacional, muito por culpa das aventuras em países como Brasil, Grécia, República Checa e Rússia.