Paulo Costa em entrevista


Agora que a época começou e o seu nome não aparece nas nomeações, de que sente mais falta? Da adrenalina da competição, da pressão de decidir, de estar perante o risco da decisão.

Como é que um gestor de empresa aparece na arbitragem? Todos devemos ter uma actividade desportiva que nos permita ser saudáveis. No caso da arbitragem é também uma paixão, e para isso arranjamos sempre tempo.

O que ficou mais prejudicado, a arbitragem ou a profissão? Claramente a vida profissional.

Gostaria de ter chegado mais longe na arbitragem? Tive a facilidade de chegar a patamares que não estavam nos meus horizontes. Fui árbitro internacional, cheguei ao grupo de elite da UEFA, actuei em muitos lugares do globo, em grandes ambientes. O que mais poderia pedir ? Ir a um campeonato da Europa, a um Mundial? Isso só está ao alcance de uma elite muito restrita. Estou feliz com o que atingi.

Qual a experiência mais marcante nestes 25 anos de arbitragem?Arbitrar um jogo com 120 mil pessoas, o dérbi de Teerão.

Em termos negativos? Uma ou outra exibição em que não fui feliz, mas nenhum jogo foi demasiado marcante pela negativa.

Fui muito criticado por alguns clubes de Lisboa e chegou a ser alcunhado de árbitro do FC Porto. Alguma ponta de verdades nestas observações? Ao longo do tempo percebi que quando se é da cidade do Porto as pessoas fazem logo a ligação: é do Porto é portista, e com jeitinho é da família de Pinto da Costa.

E é portista? Não, e também não sou familiar de Pinto da Costa.

Então, qual é o seu clube?Tenho dois filhos, de 15 e 10 anos, e se lhes perguntarem qual o meu clube eles dizem que o pai não tem clube e que é árbitro. E dizem isso porque na minha vida familiar não tenho qualquer tipo de expressão que me associe a qualquer clube.

Certamente que tem uma preferência? Estou completamente distante da paixão clubística, fruto da actividade e das consequências desta. E a nossa principal característica é a imparcialidade.

Neste 25 anos de carreira foi aliciado e pressionado? Não, pelo menos nunca senti que houvesse em relação a mim pressão. Mas para responder correctamente, tenho de dividir o percurso da arbitragem em duas fases: a arbitragem antes da Liga ser responsável pelos campeonatos profissionais e o após. Na fase mais antiga, em que eu era recém-chegado à arbitragem, senti que os clubes tinham grande pressão sobre os dirigentes da arbitragem. Recordo uma situação, no Restelo, num jogo Belenenses-Guimarães, em que minutos após ter chegado ao balneário tinha o antigo presidente do Vitória de Guimarães [Pimenta Machado]a bater-me à porta para me dizer que naquele jogo tinha percebido porque é que o Vitória nunca tinha ganho comigo. A minha resposta foi porque só daquela vez é que o Vitória tinha marcado mais golos do que o adversário. Ele disse que não se iria esquecer daquelas palavras e eu estive três meses sem apitar jogos da I Liga. Foi o único caso em que senti pressão, de forma indirecta.

Tem algum canto para as ofertas? Sim, tenho. Mas estou a falar de lembranças, camisolas, bolas...

Recusou alguma prenda? Não. Porque se tratavam de lembranças simbólicas.

A ideia que muitas vezes se associa a um árbitro é a de corrupção...Infelizmente não é fácil alterar essa ideia, que vai passando de geração em geração. Mas é de todo errada.

Qual era o jogador que mais trabalho lhe dava? Sem individualizar, divido essa caracterização em dois grupos: os jogadores que são chatos de arbitrar, que estão sempre a contestar as decisões; e os que são difíceis de arbitrar porque, pela sua qualidade técnica, facilmente simulam uma falta.

E dentro dos jogadores mais agradáveis, os mais educados? Correndo o risco de me esquecer de muitos, neste momento recordo, por exemplo, Moreira, Rúben Amorim, Postiga, Eduardo, Pedro Roma e Vítor Baía.

A sua despedida dos campos é também o adeus à arbitragem nacional?Após 25 anos de carreira repleta de grandes emoções é meu desejo agora gozar o contraste do anonimato e o prazer da vida comum, fora das quatro linhas e das luzes da ribalta.

Mas não tem projectos futuros para futebol? O futuro a Deus pertence. Sinto-me tranquilo. Embora possa abraçar todos os projectos de futebol com os quais me identifique. Concretamente, na arbitragem sinto-me com competências para assumir qualquer responsabilidade desde que reconheça o projecto e tenha a disponibilidade para o mesmo.

Fonte: DN Desporto