O tempo perdido na marcação de faltas na Liga Bwin: «A culpa não é dos árbitros»

A Liga Bwin é a terceira a nível mundial com mais tempo de jogo perdido devido à marcação de faltas, de acordo com o estudo do Observatório do futebol referente a 38 campeonatos. Em relação a este tema, Marco Ferreira e Jorge Faustino, especialistas Record em arbitragem, estão de acordo: a perda de tempo não é culpa dos árbitros.

Se analisarmos os árbitros portugueses quando atuam no estrangeiro assinalam menos infrações. Os jogadores portugueses lá fora têm uma atitude diferente em relação aos contactos e à forma como lidam com os árbitros. O pouco tempo útil de jogo é responsabilidade direta dos jogadores e não dos árbitros. São eles que definem a sua atitude em relação aos contactos que existem. Quando os espectadores deixarem de apoiar e aplaudir as perdas de tempo, as simulações, etc., tenho a certeza de que os atletas mudam de atitude e que os árbitros acompanharam essa mudança”, frisa Marco Ferreira, com Jorge Faustino a basear-se nas leis de jogo.

“O que os árbitros podem fazer está explanado nas leis de jogo: compensar o tempo perdido em substituições, lesões, exibição de cartões, celebração de golos e perdas excessivas de tempo em reposições. Quanto aos jogadores – e aqui acrescento os treinadores -, podem claramente fazer parte da solução deste problema se quiserem jogar mais e ter menos tempo o jogo interrompido fazendo menos faltas, demorando menos na execução de recomeços, não prolongar assistências dentro de campo, não perder tempo quando estão a ganhar, entre outras”, atira.

Paragens no cronómetro serão uma solução?

Na Taça Revelação, a Federação Portuguesa de Futebol vai testar um modelo inovador. O jogo vai ter duas partes de 30 minutos, com o tempo a ser cronometrado, ou seja, quando a bola não está em jogo, o relógio pára. Será esta uma solução para o problema que é o pouco tempo útil no futebol português?

“Seria uma boa solução, sim, mas só vem confirmar que a perda de tempo tornou-se numa tática muito útil a todos quando sentem que podem tirar vantagem disso. Infelizmente todos se queixam, mas na prática nada fazem para mudar e até usam em benefício próprio. Esta solução será o último recurso”, refere Marco, com o companheiro a mostrar-se “curioso em relação a esta ideia.

“Estou curioso para ver como é que o jogo e os seu intervenientes vão reagir a essa forma de gerir o tempo. Sou sempre favorável a mudanças que beneficiem o futebol. Se essa forma de cronometrar o jogo não prejudicar a sua dinâmica atual, não vejo porque não apostar nela”, afirma.

Comparação com Inglaterra e Holanda

Por fim, questionámos o Árbitro Record sobre a influência destes números na qualidade de jogo em comparação com Inglaterra (demoram mais tempo a bater as faltas, mas têm muito menos infrações) e o grande concorrente de Portugal no ranking da UEFA, Holanda (é o campeonato em que menos tempo se perde na cobrança de faltas.

“A qualidade da Liga reduz quando o tempo útil de jogo também é reduzido. Não se pode ter qualidade quando simplesmente quase não se joga futebol. Os adeptos pagam para ver a sua equipa ganhar e, mesmo que só exista um terço de tempo útil, eles aplaudem e apoiam. Não reclamam qualidade no espetáculo quando o que interessa é o resultado final. As mentalidades têm de mudar na nossa Liga e no nosso país. Exijam qualidade e condenem todas as atitudes que colocam em causa a verdade desportiva”, atira o juiz madeirense.

Já Faustino destaca a mentalidade que existe principalmente em Inglaterra. “Marcam-se menos faltas porque os jogadores caem menos. Temos vários casos de jogadores que em Portugal se queixavam e caiam muitas vezes e, a jogar em Inglaterra, mudaram esse comportamento. É uma questão de contexto. Cá, os árbitros árbitros podem e devem tentar marcar menos ‘faltinhas’. Isso implica arriscar e alargar um pouco mais o critério. A questão é se, depois, o contexto está preparado para aceitar essa abordagem e esse risco”, concluiu.

Fonte: Record