Autor

Duarte Gomes

Data: 15/05/2021

Tempo de balanços em três notas: o título do Sporting, o regresso do público e uma morte prematura

I – A época aproxima-se do fim e uma das decisões mais importantes está já fechada: a do título de campeão.

Penso que qualquer pessoa sensata e racional concordará comigo se disser que o Sporting foi um justo vencedor. E foi na mesma medida em que antes outros o foram.

Não tenhamos dúvidas: numa prova que dura nove meses, que sobrevive a quatro estações e que se divide em trinta e quatro etapas… fica à frente quem merece.

Portanto, a primeira nota é de parabéns para todos os seus jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos.

Esta vitória dos leões terá, para todo o seu universo, um sabor muito especial: foram dezanove anos de espera, de paciência e crença, a ver os mais diretos adversários alternarem entre si essa conquista.

Mas mais importante foi ganhar assim, em circunstâncias tão adversas. Ganhar sabendo que quando tudo começou equipa era “vista” como o patinho feio da prova. E ganhar sentindo pelo caminho a crítica desmedida, feroz e tantas vezes agressivas de muitos dos “seus”. Dos mesmos que agora publicam mensagens de elogio, de amor eterno e alegria descabida, como se nada se passasse. Como se ninguém se lembrasse.

Vergonha na cara precisa-se, mas esta malta não tem.

II – Nota igualmente positiva para o regresso do público aos estádios na última jornada da Liga NOS. A notícia, limitada na forma (como teria que ser), é um bombom bem merecido para quem é realmente importante no espetáculo.

Ainda que em antecâmara para a presença de adeptos na final da Liga dos Campeões (que será jogada no Porto), não deixa de haver mérito tremendo na forma insistente e combativa como FPF e Liga Portugal tornaram possível esse desejo. Desejo concretizado com o aval elogiável do governo. O seu a seu dono.

Seria muito bonito (e justo) que a final feminina da Champions (organizada pela UEFA) também pudesse contar com espetadores nas bancadas, mas mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.

III – Última nota, em jeito de off topic, para a morte da Maria João Abreu, atriz jovem e talentosa, cuja partida demasiado prematura nos abre aqui espaço para reflexão mais profunda: a vida é mesmo o bem maior.

Maior, bem maior que qualquer objetivo pessoal ou ambição profissional que tenhamos.

Perto dela, tudo parece efémero. E é mesmo.

Continuamos a subestima-la, focando nos entretantos e esquecendo o mais importante: o nosso relógio biológico não pára e cada segundo que passa é menos um que falta. É menos um que temos para fazer mais, para fazer melhor.

Tratemos de aproveitar esse tempo com entusiasmo, altruísmo e verdade. Sejamos sérios, leves, livres e felizes.

Não vale a pena desviar o caminho, trepar sobre os outros ou esmagar o que nos aparece pela frente. Por muito que ganhe, ninguém vence assim.

Usufruamos do privilégio que é o de andarmos por cá com saúde e façamo-lo com coluna direita e sono bem dormido. Por nós, pelos nosso filhos, pelo legado que deixarmos para quem vier depois.

Há coisas bem maiores do que fazermos coisas pequeninas.

Fonte: Expresso