Autor

Jorge Faustino

Data: 20/03/2019

Plano de câmaras

A discussão sobre a localização das câmaras utilizadas nas transmissões televisivas da Liga NOS, e consequentemente utilizadas pelo videoárbitro nos jogos dessa mesma competição, reacendeu este fim-de-semana após alguns lances ocorridos no Moreirense – Benfica. A dita discussão surgiu por não existirem imagens com qualidade suficiente (falamos de ângulos de visão) para esclarecer dois lances de fora-de-jogo: golo invalidado ao Portimonense (parece que a bola entrou mesmo) e golo validado ao Benfica. Em ambas as situações, as imagens disponíveis não permitem garantir o acerto ou desacerto das decisões dos árbitros assistentes. Não havendo imagens que garantam que houve erro, o meu trabalho fica de certa forma facilitado, sou “obrigado” a dar o benefício da dúvida aos que em campo tomaram a decisão.

A pergunta que se impõe é: num novo paradigma do futebol, onde a vídeoarbitragem tem um papel tão marcante, faz sentido que na mesma competição tenhamos uns jogos em que as câmaras de fora-de-jogo estão colocadas numa posição que dá garantias de esclarecer 90% dos lances e noutros jogos, essas mesmas câmaras, pela sua colocação mais perto do relvado (em altura e distância), apenas nos permitem esclarecer 50% dos lances?

É isso que está a acontecer na nossa competição. Os regulamentos preveem a localização das 10 câmaras que devem ser obrigatoriamente utilizadas nas transmissões, mas esse posicionamento é indicativo e sujeito às condições atuais dos estádios.

A implementação deste plano mínimo está a cargo do detentor dos direitos televisivos e respetivos operadores e é verificada, em todos os jogos, pelos delegados da Liga.

O Regulamento de Competições da Liga refere que “na impossibilidade de colocação das câmaras nos locais identificados, em função de questões de espaço no estádio, segurança ou risco, novos locais de colocação de câmaras poderão ser definidos mediante aprovação em vistoria a realizar por parte da LPFP e da FPF, sem embargo, a alteração da localização no plano de câmaras não poderá́ restringir o plano de captação de imagens que a figura infra disposta contempla, restringindo ou condicionando algum ângulo ou perspetiva, especialmente considerando o principio de igualdade de meios que é exigido ao funcionamento do videoárbitro para garantir os princípios da ética, justiça, lealdade e verdade desportiva”.

Quem está mais atento às coisas do Direito, sabe que Portugal é dos países do mundo com legislação mais completa. Quem vive em Portugal sente na pele as falhas de aplicação dessa tão completa legislação. Parece que o futebol não escapa a este desígnio português.

Olhando para o que é uma transmissão de um jogo em Moreira de Cónegos e para o que é a transmissão de um jogo num dos estádios maiores e mais modernos alguém acredita que estão garantidas as condições para que o videoárbitro atue com base num principio de igualdade de meios para garantir os princípios da ética, justiça, lealdade e verdade desportiva?

 

Artigo de opinião publicado no jornal Record de 19 de março de 2019