Autor

Duarte Gomes

Data: 26/05/2021

Os 33 anos de carreira do árbitro Bruno Paixão

Bruno Paixão decidiu colocar um ponto final na sua ligação de 33 anos à arbitragem.

Num texto publicado nas suas redes sociais, o ex-árbitro internacional, ex-videoárbitro e atual observador na FPF, falou abertamente sobre o fim desta etapa.

Tenho que dizer que sei bem o que está a sentir o Bruno neste momento.

Sei também que ninguém pensa nisso quando se fala de árbitros, mas percebam que esta é uma carreira que acompanha-nos a vida inteira.

Começámos jovens, muito jovens, partindo cedo demais para um mundo novo. Um mundo que achamos que conhecemos, mas que na verdade desconhecemos por completo.

Não duvidem: ninguém consegue preparar-se para a avalanche de emoções que caracteriza a vida de um árbitro de futebol.

O primeiro insulto imprevisto e aleatório surge logo à porta do estádio, antes de nos estrearmos, antes de fazermos o nosso primeiro jogo. Ainda estamos a tremer por dentro e por fora sem saber bem o que vai acontecer e, pelo sim pelo não, já somos ladrões, corruptos e maricas.

É chapa-quatro. Não dá para pensar ou reagir. É ouvir e calar ou, se calhar, apanhar.

Penso que esta é a única profissão do mundo em que já somos desonestos antes de começarmos a trabalhar.

Pode ter piada – e a esta distância até tem – mas acreditem, não é qualquer miúdo(a) que ouve, aguenta e fica.

Depois piora. A boca leviana do herói de circunstância passa a cuspidela. A seguir vêm as moedas atiradas para cara, braços e pernas. A coisa aí torna-se mais intrusiva e pessoal. Mais repugnante.

Enoja.

Enoja essa agressão gratuita sem nada que o justifique (e nunca nada o justifica). E enoja mais quando o argumento é o da “cabeça quente”, o da latinidade, das emoções ao rubro. Como se ser impulsivo ou intempestivo desse a alguém carta branca para se comportar como um animal.

Mas como tudo na vida, o tempo tudo sara. E com o tempo aprende-se a gerir. A ilusão inicial dá lugar à desilusão momentânea, logo esquecida por uma força interior súbita, que surge sabe-se lá de onde.

Depois vêm jogos bons, palavras importantes dos colegas mais experientes e tudo volta a ganhar sentido… até perder de novo. É uma montanha-russa de emoções e reações, um sobe e desce que nos leva ao limite. Que nos molda o caráter, o pensamento, a forma de ser e estar.

O Bruno ouviu, levou e aguentou com muito, durante muitos anos.

Como todos nós, lá recebeu o seu rótulo a dada altura – o dele surgiu cedo demais – e a partir daí correu atrás do prejuízo, como se fosse sua obrigação tentar provar que não era desonesto e que um primeiro jogo mau não determinava a devoção e entrega a uma carreira inteira.

Foi inglório o esforço, porque quando o tribunal popular sentencia, não há juiz que resista.

Moralistas como somos a atirar pedras aos outros, está bom de ver que nada havia a fazer.

Por entre desconfianças, insultos, ofensas, ameaças e agressões, o Bruno Paixão encontrou resiliência para fazer o seu caminho. E fê-lo. Depois de estabilizar na primeira categoria, chegou a internacional e, lá fora, trepou até ao Grupo 1 da UEFA. Mérito dele, só dele.

Apesar do vendaval de críticas que tinha em cada jogo que arbitrava em Portugal, provava – nas suas classificações anuais e nas várias provas físicas e escritas que realizava em cada época – que merecia o estatuto que ocupava.

Pelo meio e à custa de muita pancada, cresceu e fez-se homem. Continuou a ser colega e amigo de muitos de nós e passou também a ser marido e pai de alguém.

Licenciou-se em engenharia e percorreu o seu caminho, vivendo a vida que um árbitro profissional vive: meio escondida e muito condicionada. Condicionada nas férias, nos lugares que visitava, nos restaurantes que frequentava, nas estradas que conduzia, nos sítios que parava. Foi assim sempre, durante 33 anos.

É o preço a pagar, dizem. Eu acho que não. Ninguém tem que pagar um preço assim, tão íntimo, por escolher uma carreira nobre no desporto.

Sou amigo do Bruno há três décadas. Trinta anos certinhos.

Sei que tem um coração gigante, que é humilde, “bom menino” e boa pessoa. E sei que nunca errou de propósito. Como árbitro será sempre escrutinado da forma que o povo se lembrar e quiser, mas como homem….nota cinco.

Espero e desejo que encontre a paz que merece nesta nova fase da sua vida.

O futebol é muito bonito mas por vezes injusto: manda para para fogueira gente boa e aplaude com frequência os “maus da fita”.

Vá se lá saber.

Fonte: Expresso