Autor

Carlos Matos

Data: 03/09/2021

“Coisas simples que me fizeram feliz” por Carlos Matos

Mudam-se os tempos, …
Foi recentemente inaugurado o parque desportivo do R R M, sem minimamente entrar em questões de eleições autárquicas, revivi uma memória da década de 80 de
um jogo do RRM, disputado no seu terreno de jogo “pelado”.
Manhã cedo de domingo, jogo de iniciados. Tinha tido um jogo de 1a divisão no sábado à noite no Porto.
Poucas horas de sono, mas o mesmo entusiasmo de sempre, lá estava eu em Mem Martins para arbitrar o jogo.
Jogo normalíssimo, com público e muitos familiares dos jogadores.
Nos minutos iniciais apito para assinalar uma falta ao “melhor jogador” do RRM”, na minha leitura, claro.
Discordância pronta, em voz baixa, “não fiz nada, falta?”. Ignorei e o jogo prosseguiu.
Volvidos alguns minutos, uma falta contra o RRM, “Sr. Árbitro (naquele tempo tratavam o árbitro por senhor) outra vez contra nós?”.
Aconselhei calma.
O jogo continuou.
Outra falta, novo desacordo, sem ser espalhafatoso, éra-o, e teria que pôr cobro a estas atitudes, o jogador era o mais influente na sua equipa e ainda faltava muito tempo para o fim.
Nunca tinha sido pessoa de mostrar cartões a “garotos”, estão a crescer, desportiva e socialmente e autoritarismo não era a minha cena.
Teria que engendrar uma madeira de o fazer arrepiar caminho.
O jogar faz um passe defeituoso e a bola foi para fora do campo. Disse-lhe:”Falhaste o passe, agora os teus colegas vão ter que correr atrás da bola por causa do teu erro”. Olhou-me surpreso, com os músculos da face tensos de indignação contida.
Nova situação, passe curto e entrega a bola a um adversário proporcionando, à equipa adversária, um contra ataque. Olhei-o nos olhos sem dizer nada, mas o suficiente para ele no imediato dizer:”o sr. Árbitro está-me a desconcentrar”. Eu respondi: “passe curto, face interna da bota” e acrescentei: “e quando reclamas com os árbitros não os desconcentras?”.
Passados uns minutos novo passe errado. Ele olha para mim e eu impávido e sereno.
Na próxima interrupção disse-lhe: “Vamos fazer um pacto, nem tu me chateias, e jogas o que sabes, que é muito, mas estás mais preocupado comigo, nem eu a ti. Combinado?”. Anuiu.
Próximo do intervalo:” Stôr quando toca?”. “Podes arrumar, já vai para o intervalo”.
Na segunda parte jogou imenso e a sua equipa ganhou.
Á saída das cabinas, quando já quase todos tinham abandonado as instalações deparo-me com umas 5 ou 6 pessoas.
-Que raio?, pensei eu.
Era o tal jogador.
“Sr. Árbitro queria apresentar-lhe os meus pais”.
Cumprimentámo-nos cordialmente e o pai do jogador disse:” Sr. Árbitro queria-lhe agradecer, o meu filho contou-me, deu-lhe uma lição de como respeitar as pessoas e como é importante estarmos concentrados no que se está a fazer”.
Lá fomos cada uma para as suas vidas.
Espero que a vida tenha sorrido ao jogador.
Coisas simples que me fizeram feliz.