Opinião: Desonestidade Intelectual


Desonestidade intelectual

Confesso que – no que trata ao desporto - tenho já alguma impaciência em escolher qual o diário desportivo que compre; qual o canal generalista que escolha: nomeadamente no que trata ao desporto Rei - Futebol.

Os leitores devem portanto saber antes de escolher, o que mais lhe convêm ler, procurando um artigo onde a profundidade do assunto lhe evoque a atenção; bem redigido; pese embora o facto de se saber que, atrás de uma bagatela de páginas estão muitas horas de trabalho atrás de um computador.Todos sabemos que ser jornalista, é uma profissão exigente, onde o assunto e o argumento têm de esclarecer quem lê, e quem lê, esclarece perigosamente quem não leu! Mas então e quem não gosta de ler? Consome horas e horas de televisão. Novamente o jornalista é a «ponte» do conteúdo. Existem, salvo melhor opinião, demasiados programas desportivos. Guerra pelas audiências? Já lá vamos. Existem sim, demais! O “zapping” ora mora neste, ou naquele programa, depende do painel de convidados, do jornalista, dos comentadores! Todavia, paralelamente a estes «intervenientes» pode estar um público que gosta da credibilidade e sobretudo da imparcialidade que o desporto logra, juntamente com os seus participantes «ativos».

As técnicas – painel - para aferir estas audiências, são muitas vezes dúbias para muita gente, indiferente ou pouco esclarecida sobre este assunto. O autorregulador da atividade televisiva, a CAEM (Comissão de Análise de Estudo de Meios) já colocou em prática um novo sistema para desenevoar a guerra pelas audiências. A técnica chama-se audiomatching e é nova em Portugal. Sinteticamente consegue-se saber qual o programa que está a ser visto, ouvindo a gravação do som de emissão; é depois comparado com uma base de dados, onde estão registados 150 canais.
Isto é importante? Sim, na medida em que são as audiências que pulsam os canais. E é tão fácil seduzir este público. Mas erros também podem acontecer, e estão previstos.

Adiante. Será que todo este «público» sabe o trabalho que todos os agentes desportivos têm? Será que todo este «público» sabe, o que um árbitro de futebol trabalha para dirigir um jogo e como se prepara para o mesmo? Será que os Jornalistas sabem? Será que os “comentadores” o sabem? Será mesmo que sabemos o que é ser árbitro de futebol? Pois bem, se saber o que é um árbitro de futebol é conhecê-lo pelos seus erros ou êxitos, mesmo que provisórios; é olhar para um jornal e reconhecê-lo; é saber quem é nas redes socias; é olhar para o jogo que está a passar na TV; é dar uma espreitadela pelos dados «pessoais» que um hacker «assaltou» de uma base de dados; estão todos enganados…

A estratégia de atacar esta classe é somente para agredir os valores morais dos próprios. Mas o que nem toda a gente sabe, é que estes «juízes do futebol» são mais fortes intelectualmente e honestos, do que muitos comentários desmesurados que todos os dias são pronunciados, ora por jornalistas, ora por comentadores desportivos.
Um árbitro de futebol tem de prestar provas dos seus conhecimentos duas vezes por época. Têm cursos de aperfeiçoamento para enfrentar os palcos por onde o Futebol se tem dilatado nos últimos tempos. Os conhecimentos de um árbitro sobre as Leis do Jogo são profundos e, velar pela aplicação das Leis do Jogo é o primeiro dos ícones da Lei 5 do Futebol. Quem mais saberá de Leis do Jogo, que não estes senhores? Não basta dar uma olhadela para um livro das leis de jogo e dizer que se sabe tudo sobre o futebol. É preciso saber aplicar as Leis do jogo no campo; é preciso muito e muito treino, e muitas horas de vontade; é preciso perseverança; por isso nem todos chegam lá! Ser árbitro? – Deus me livre!

Sejamos honestos. Em todas as nossas tarefas temos direitos e deveres, certo? Os árbitros também os têm! E têm de cumpri-los! Mas agora pergunto: E como é possível fazer cumprir as Leis do jogo, com este clima crispado? É possível. Basta para isso ser árbitro de futebol. Decerto que ninguém ainda viu um árbitro de futebol criticar um jornalista ou comentador que faz um «relato» de um jogo de futebol - em tempo real - ora seja na rádio, ora seja na televisão, seria inédito! Um ex-árbitro até pode ser convidado para comentar algum pormenor afeto às Leis do jogo, mas isso não deixa cair por terra a seguinte frase:“Ninguém mais sabe de Leis de Futebol, que um árbitro de futebol”.

Tenho tido algumas dificuldades em aceitar as hediondas críticas ao trabalho dos árbitros portugueses, que são feitas pelos dirigentes desportivos, comentadores desportivos, e alguns jornalistas que compõem os painéis dos conhecidos programas desportivos. Seria talvez uma boa altura para, “parar e pensar”, até porque o «público» que vê os demais programas nos canais generalistas até pode já estar farto de tanta carolice desmedida. É que senhores comentadores: - O que os senhores dizem, é de tal forma «infectocontagioso» que as repercussões estão à vista de todos!

O facciosismo é uma boa venda para as audiências? Mas será que não deverá haver igualmente ética, imparcialidade e credibilidade no discurso? É preciso ter alguns cuidados redobrados quando não se sabe da poda! E é intelectualmente desonesto, falarmos daquilo que não dominamos na íntegra, como se fossemos donos da razão. Erros associados a qualquer atividade, sempre existirão. Não esqueçamos pois, que a profundidade de um tema só poderá ser analisada pelos “especialistas”. E do futebol todos opinamos… todos “pensamos” que: seríamos os melhores treinadores do mundo; seríamos os melhores jogadores do mundo; seríamos os melhores árbitros do mundo; Querem uma verdade? Nem nas consolas de jogos… o tal «erro associado» também lá está! Então e porque isto acontece? Acontece porque somos humanos, e quando temos a palavra do nosso lado, não somos intelectualmente honestos para saber dizer: - Espera, não sou especialista nessa matéria para opinar sobre esse assunto! Mas vou falar com um! E quem mais sabe de arbitragem que não os próprios árbitros e dirigentes da arbitragem?

Pensem nisto.

Por: Nuno Cordas