Entrevista: Benito Archundia: “Eu amo o futebol”


Quando Benito Archundia anda pelas ruas no México, as pessoas ficam paralisadas, cheias de admiração e, muito frequentemente, pedem para tirar uma foto ao seu lado. O motivo da fascinação é que ele exerce uma importante função no mundo da bola. Mas não, o mexicano não é um jogador famoso nem um técnico genial. Archundia cativa o coração dos seus compatriotas atuando em uma profissão muito complicada no meio futebolístico: ele é um dos mais conhecidos árbitros do seu país e também de todo o planeta.
Archundia é detentor de vários recordes. Na Alemanha 2006, ele se tornou o primeiro árbitro a dirigir cinco partidas em uma Copa do Mundo da FIFA. Quatro anos mais tarde, na África do Sul 2010, o juiz de 45 anos ultrapassou a marca que pertencia a Joël Quiniou e Jorge Larrionda ao atingir oito partidas apitadas em Mundiais. Além disso, ele também foi o responsável pelas finais de duas edições da Copa do Mundo de Clubes da FIFA, esteve presente nas Olimpíadas de 1996 e 2004 e em duas edições da Copa das Confederações da FIFA, em 2001 e 2009.
Por ocasião da Copa do Mundo Sub-17 da FIFA disputada no seu país, o FIFA.com aproveitou para realizar uma entrevista exclusiva com Archundia. Em Querétaro, uma das sedes do México 2011, ele respondeu a perguntas sobre a sua carreira, suas lembranças e seus objetivos para o futuro.
FIFA.com: Archundia, estamos aqui hoje no hotel da FIFA em Querétaro. Quais as suas tarefas nesta Copa do Mundo Sub-17 da FIFA?
Benito Archundia: A FIFA me convidou para este torneio. Estou aqui como observador de árbitros para ajudar e apoiar os juízes. Para mim, está sendo uma boa experiência. É um passo a mais na minha carreira. Estou me preparando para me tornar instrutor para formar jovens árbitros. A Copa do Mundo é uma boa chance para o México mostrar aos visitantes de todo o mundo como o país é bonito.
Você poderia nos contar quais são os seus planos para o futuro?
Haverá alguns cursos. Depois, viajo para a Copa do Mundo Sub-20 na Colômbia. Além disso, a minha federação me enviará para a Inglaterra, Espanha, Itália e Alemanha para aprender como os juízes são formados nesses países. Depois, trarei esses conhecimentos de volta ao México para aplicá-los por aqui.
Há algum jogo específico ao longo da sua carreira que tenha ficado marcado na memória?
Tenho muitas lembranças, mas o jogo que mais me marcou foi a semifinal da Copa do Mundo de 2006 entre Alemanha e Itália. Tenho uma lembrança pessoal especial daquela grande partida. Quando a Itália marcou o segundo gol, apontei para o centro de campo e o Marco Materazzi correu para mim e me abraçou. Naquele momento, pensei: 'O que está acontecendo aqui? Sou o juiz, não jogador!' Mas então me dei conta de que ninguém estava olhando para mim naquele momento. Todos estavam observando os italianos comemorando. No dia seguinte, entretanto, havia muitas fotos daquele momento. Quando perguntaram ao Materazzi sobre o assunto, ele respondeu que eu havia apitado muito bem e que não via por que não poderia me dar os parabéns. É uma bela lembrança para mim.
Como você descreveria o seu estilo dentro de campo?
Antes de me tornar árbitro, joguei futebol. Portanto, posso entender quando os jogadores se irritam ou ficam felizes. O meu princípio durante as partidas era que os jogadores são o mais importante, não o juiz. Era assim que eu entendia o meu papel dentro de campo. O meu estilo era ter um bom relacionamento com os atletas e ter compreensão em certas situações. Mas quando era preciso dar o cartão vermelho, nunca hesitei. Também é possível evitar muitas situações para que isso não chegue a ser necessário. Respeite os jogadores que eles o respeitarão.
Por que você decidiu se tornar árbitro em vez de tentar a sorte como jogador?
Eu era um bom jogador e costumava usar a camisa 10. Sempre joguei na escola e na universidade e sempre fui capitão. Quando me tornei árbitro, as pessoas me diziam que eu poderia ser um bom jogador, mas também um bom árbitro. Então, aos 16 anos, decidi. Olhando para trás e analisando, é óbvio que foi uma boa decisão.
Na sua carreira, você apitou oito jogos da Copa do Mundo da FIFA. Você se orgulha desse recorde?
Claro que me orgulho. Na época, eu não sabia disso. Fiz a minha preparação para a Copa do Mundo e não para obter um recorde. Eu queria apitar um ou dois jogos. Quando fui escalado para a semifinal, fui perguntado como seria dirigir cinco partidas. Respondi que talvez fosse fruto do meu bom rendimento. Só então descobri que era um recorde. Para mim, foi algo incrível.
Como você descreveria o relacionamento entre os torcedores e os juízes no seu país?
Os torcedores apoiam os seus times durante as partidas e protestam contra as decisões dos árbitros. Em todo o mundo é assim. Mas, após o jogo, os torcedores reconhecem o desempenho do juiz. Tive uma experiência interessante há uns dez anos em Torreón: logo depois do jogo, um torcedor me xingou a caminho do vestiário. Uma hora mais tarde, quando eu estava deixando o estádio, esse mesmo torcedor estava me esperando com toda a sua família. Ele veio até mim e disse: 'Tenho respeito por você, e você é um bom juiz. Estamos muito felizes com você. Você poderia me autografar a minha camisa e tirar uma foto comigo?' Naquele momento, compreendi que as pessoas podem protestar durante o jogo, mas depois elas ficam satisfeitas com o árbitro.
O que mais fascina um árbitro?
Eu amo o futebol. Muitos dos meus amigos dizem que amam o futebol, mas, quando pergunto se eles gostariam de ser juízes, a resposta é 'não'. Já eu amo tanto o futebol que me tornei árbitro.

Fonte: FIFA